
Nos mistérios insondáveis do oceano, onde a luz se dissolve na escuridão e o silêncio pesa e o tempo parece suspenso, habita uma criatura que define a identidade de um povo: o de Câmara de Lobos. Desculpar-me-ão que enalteça o meu concelho. Tentarei não ser maçudo ou enfadonho. Até por que falar-vos-ei igualmente de uma herança, de um património e de uma espécie marinha que habita as profundezas do Atlântico; Falar-vos-ei também de um testemunho vivo, de uma história de gente, da resiliência que molda a alma dos nossos e dos ainda que ousam desafiar o mar. Apesar de andar em terra firme, conheço-os um por um, porque desde cedo andei ao lado de quem atira o anzol e que não aparece apenas quando a época é propícia ao engodo. Adiante.
Câmara de Lobos tem, desde tempos imemoriais, um pacto silencioso com o mar. Está cravado nas rochas da nossa baía, onde os seus pescadores, herdeiros de um conhecimento forjado na incerteza das ondas, aprenderam a ler os sinais invisíveis da natureza, a sentir o pulso das marés e a entender que o mar dá, mas cientes que também tira. Sabem distinguir entre o que é certo e o que é errado mesmo que a cada isca lançada alimente uma esperança falaciosa.