Gil Canha Tenho recebido com muita tristeza notícias alarmantes sobre o actual ambiente de crispação na Câmara Municipal do Funchal. E as notícias são alarmantes, porque descrevem o desastre que está a minar e a deteriorar o seu maior valor, que é os seus recursos humanos. Como ex vereador desta autarquia, tenho a atestar que a grande maioria dos seus funcionários e técnicos são pessoas empenhadas, sérias, leais e extremamente competentes. Obviamente, como em qualquer organização humana, também existem algumas “ratas velhas”, mas felizmente poucas e a maioria delas já sinalizadas.

Na experiência que tive como vereador, foi uma agradável surpresa testemunhar que a Câmara Municipal do Funchal tem muitos bons funcionários, e verifiquei também, que se a liderança política souber ouvi-los, se tiver mão-firme, se der bons exemplos de trabalho, seriedade e dedicação, eles respondem da mesma forma eficiente, que um motor reage quando se pisa no acelerador.

Por outro lado, se as chefias e restantes funcionários são permanentemente desautorizados nas suas funções; se os seus pareceres são metidos no caixote do lixo; se recebem permanentemente ordens contraditórias dos vereadores e do próprio presidente; se são perseguidos ou achincalhados por pertencerem a este ou aquele partido; se são tratados como “crianças” e chamadas ao tapete por adjuntos incompetentes e emproados (da mesma estirpe dum Miguel de Vasconcelos, o famigerado secretário da Duquesa de Mântua, durante o domínio filipino); se veem passar por debaixo dos seus olhos favorecimentos e facilitismos a este ou aquele, jeitos a fulano e a sicrano; se assistem a um tratamento desigual só porque este munícipe é rico e poderoso, e aquele não; se emitem pareceres técnico-legais que depois são totalmente desvirtuados ou anulados pelo decisor político da autarquia, para favorecer empresas, amigos e familiares (veja-se o caso da ex mulher de Miguel Albuquerque, que chegou a fazer vários projectos que violavam grosseiramente o PDM); se forem pressionados e perseguidos ignobilmente pela presidência/vereação para alterarem os seus pareceres, para facilitarem negociatas e outras jogadas obscuras (como foi o caso do jantar, no Mercado dos Lavradores, de apoio a Francisco Assis, que o PS não queria pagar, ou o caso do Marítimo), então é compreensível que, alguns funcionários, assistindo a tudo isto, também se deixem corromper e perverter irracionalmente; que fiquem desmotivados e passem o tempo nos cafés à volta da Câmara; que cheguem tarde ao trabalho; que percam a vontade de acordar para irem para o serviço; que não cumpram com zelo e eficiência as suas funções ou que gastem o tempo a fingir que trabalham, porque sabem que “os de cima” também fingem que os mandam.

Infelizmente, esta situação agravou-se com a actual administração socialista. E, para justificar a sua incompetência, desmazelo e inabilidade, estes pseudolíderes acham que estão a ser sabotados pelos próprios funcionários, transformados nas brilhantes cabeças deles, em perigosos agentes conspirativos “laranja”; vai daí, toca a desencadear uma verdadeira “caça às bruxas”, uma “espécie de purga estalinista”, a que eles chamam pomposamente de “reorganização” e “mudança”.

É verdade que a autarquia tem chefias a mais (graças à mão larga de Miguel Albuquerque); é verdade que existem mais administrativos que trabalhadores operacionais; é verdade que é necessário implementar um novo Organigrama, para racionalizar recursos e agilizar a eficiência da máquina administrativa, até para se cumprirem exigências legais e os acordos do famigerado PAEL, É VERDADE! Mas isto não pode ser feito de uma assentada só, como se alguém desse um apito para o início de uma corrida. Aliás, a Câmara não é nenhum acampamento cigano, que ao primeiro toque de alarme, levanta repentinamente arraiais e vai assentar para outro lado. Imaginem, por exemplo, alguém chegar a uma colmeia e mudar repentinamente a hierarquia e as funções das abelhas. Ou chegar a um exército, envolvido em várias batalhas, e substituir repentinamente todos os sargentos e oficiais, ou a um organismo atacado por uma virose, e alterar o seu sistema imunitário abruptamente. Seria o caos!

Em consciência, também tenho que reconhecer que contribuí grandemente para este “peditório”, por isso aqui expresso as minhas desculpas públicas a todos os funcionários da Câmara Municipal do Funchal que estão a passar por esta desgraça.