Depois de muitos anos a vermos medíocres e oportunistas a ascenderem à posição de “brilhantes” e de “pessoas de confiança”, só porque alguém assim o decidiu, assistimos agora ao fenómeno inverso, em que profissionais altamente qualificados, sem qualquer tipo de responsabilidades nos desastres efectuados, atentados cometidos e resultados apresentados, são qualificados como “medíocres”, “vendidos” e como estando “ao serviço de interesses obscuros”, só porque dizem a verdade... Sinais dos tempos conturbados que vivemos e do desgaste que a idade inflige a todos os seres humanos, mesmo os muito importantes.

Para haver “bons” tem de haver “maus”. Seguindo a mesma lógica, para haver “excelentes” tem de haver “medíocres”. No caso dos bons e os excelentes gestores e administradores hospitalares, estes avaliam-se pelos resultados obtidos em função da sua liderança e não pela sua exposição mediática e acção propagandística. Por uma questão de boa educação, abstenho-me de referir os maus exemplos que todos conhecemos. Prefiro antes centrar-me em alguns dos melhores administradores de hospitais do nosso país, que por acaso até são médicos, e que deveriam ser um exemplo a seguir por quem assume funções de liderança na Saúde: - Adalberto Campos Fernandes, Médico Especialista em Saúde Pública, Gestor Hospitalar e Docente Universitário, Presidente da Comissão Executiva do SAMS, foi Presidente do Conselho de Administração do Hospital de Cascais, Hospital de Santa Maria, Hospital Pulido Valente e do Centro Hospitalar Lisboa Norte. É Professor Auxiliar Convidado da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Universidade Nova de Lisboa, onde tive o privilégio de ser seu aluno no Curso de Especialização em Administração Hospitalar e aprender imenso com os seus conhecimentos e exemplo.

O Dr. Campos Fernandes teve um papel extremamente meritório na sua passagem pelo Hospital de Santa Maria, que é “só” o maior hospital do país. Quando o Dr. Campos Fernandes assumiu a liderança do Conselho de Administração deste hospital, este era considerado como sendo ingovernável e tinha imensos problemas de diversa ordem, sendo apontado como “o exemplo a não seguir” para todo o país. Na altura da sua saída da Presidência do Conselho de Administração, o Hospital de Santa Maria era, e continua a ser, um Hospital de referência, a todos os níveis.

- António Ferreira, Médico e Professor Universitário, Presidente do Conselho de Administração do Hospital São João, Professor Auxiliar Convidado da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

O Hospital São João também é um Hospital de referência, atingiu um nível de eficiência na sua gestão que outros hospitais, para atingir a mesma produção, gastariam mais 138 milhões de euros. Se outros 5 hospitais, do mesmo grupo, tratassem os seus utentes pelo mesmo valor pelos quais são tratados no Hospital São João, o Estado teria poupado 185 milhões de euros só no ano de 2013. A dívida deste hospital passou dos 149 milhões de euros em 2011 para 77 milhões de euros em 2014. A Administração deste hospital solidarizou-se recentemente com a demissão de 58 directores de serviço e 8 responsáveis pelas Unidades Autónomas de Gestão e pouco tempo depois as suas exigências foram aceites pelo Ministério da Saúde.

Estas personalidades têm algumas características em comum, com um natural destaque pelo seu vasto percurso académico, ligação ao ensino universitário, respeito que têm dos seus pares e restantes profissionais de saúde e pelos resultados que apresentam no exercício das suas funções. São líderes naturais, dão a cara pela sua equipa mas não são “homens providenciais” ou “infalíveis”, não precisam de exercer os seus cargos de forma autoritária, são defensores de um estilo de gestão clara, onde as regras são conhecidas por tudo e todos, são maiores que os cargos que ocupam e quando deixarem de os ocupar continuarão a ser grandes, influentes e importantes. As suas instituições aparecem sempre nos primeiros lugares dos rankings dos hospitais nacionais publicados anualmente pela ENSP e a sua liderança, forte e efectiva, é sempre acompanhada por profissionais altamente qualificados no campo da Administração Hospitalar.

Os seus resultados não são fruto da sua vontade pessoal, mas sim de muito trabalho de equipa, com profissionais muito preparados e competentes. Nunca os vimos a confundir divergências de opinião com problemas pessoais ou profissionais e nunca estes médicos tiveram a veleidade de substituírem-se a engenheiros, arquitectos, advogados, administradores hospitalares ou gestores, nem dar opinião sobre assuntos que não lhes dizem respeito e para os quais não estão capacitados ou mandatados. Estas personalidades não têm nada que ver com certos tigres de papel, que apesar de muito grandes e ferozes, assustadores e ameaçadores, nem por isso deixam de ser de papel, nem deixam de estar à mercê de qualquer um que esteja munido apenas com a chama da verdade, da competência, do conhecimento, da coragem e da sua inteligência.

“Que tempos são estes em que é necessário defender o óbvio?” – Bertolt Brecht

Duarte Nuno Dória