Jorge Gomes Tal como na banca, há vinhos maus e vinhos bons. Os maus azedam as almas e quando sobem às cabeças, aqui d’el-rei, que é sempre o fim da picada, pois surgem os disparates atrás de disparates, e que só terminam de ser ditos quando os bebedores pouco cautelosos depois da extrema- unção, entregam a alma ao criador (ou aos criadores, pois há vários…).
Quanto aos vinhos bons, e há-os tão bons, tão bons, que, quando moderadamente ingeridos, podem espalhar auréolas de paz, de concórdia, fazendo com que quase sempre os pés e as cabeças não saiam dos seus verdadeiros lugares, apaziguando ânimos entre seres irremediavelmente desavindos, depositando em caldeirões profundos ódios e picardias nem sempre sentidas (quase sempre sem resposta) mas que fazem parte dos jogos daqueles que se miram permanentemente aos espelhos e aquecem compulsivamente as suas almas, quer de Verão quer de Inverno, frente às fogueiras das vaidades por si mandadas atear e mantidas acesas por quantos lhes querem bem, mas por vezes nem sempre para toda a eternidade.
Por falar em vinho, falemos apenas do bom, que o mau é traiçoeiro, apraz-me registar que ontem fiquei mergulhado numa felicidade sem limites, não que tal se devesse a ter ingerido fosse o que fosse, mas apenas à foto de capa do Diário de quinta-feira passada, dia 2, mostrando lado a lado, sorridentes, cordiais (em excesso, achei eu…), duas pessoas para quem a antiga máxima “serviço é serviço, conhaque é conhaque” está sempre na ponta da língua, e que, pela alegria adivinhada resultante do cocktail, penso eu, não houve tempo sequer para que nem apenas um simples ato da ópera bufa há anos em cartaz e denominada “Madeira Velha-Madeira Nova, Blandys, Maçonaria, e etc. e tal…” ali pudesse ter sido ensaiada. Nem o vinho bom deixaria, já que é inimigo de ódios de estimação. E era o que faltava, logo ali!
Assim, sabendo-se de arrufos há anos e anos ditados aos quatro ventos e sempre à espera de resposta que nunca vem, e porque fiquei feliz até à exaustão com a foto publicada, desejo felicidades aos fotografados, e oxalá tivessem sentido que o bom vinho ajuda a curar chagas, das almas e das costas, e que o futuro continue a fazer sorrir quem beber sempre, mas sempre, bom vinho, de forma que seja possível entre dois copos dizer-se em voz bem alta que os ingleses são também pessoas gratas nesta terra que quiseram que fosse também a sua, e que há herdeiros, que mesmo sorrindo e de copo na mão, acham que não têm culpa dos erros dos seus antepassados, e que apesar da alegria do convívio, talvez bem no seu âmago, quem sabe, tenham razão para achar que “ quem não se sente não é filho de boa gente!”
E se as pipas de vinho, do bom, deram e sempre hão-de dar pipas de massa para os ingleses e para os madeirenses também, então, tal como os fotografados, brindemos Tchim-Tchim, e abaixo as zurrapas!