Tinha tanto sono na última vez que me cruzei com a “eficiência” do Norte da Europa. Era Domingo de madrugada e o comboio circulava com um atraso de 20 minutos. Estava em Dusseldorf, um dos centros financeiros da Alemanha, e era evidente que ia perder a ligação, em Aachen, para Bruxelas.
A bela rapariga, de pé, atrás do balcão de atendimento, deveria estar com tensão pré-menstrual ou aflita para ir à casa de banho ou com um problema terrível, e só sabia rosnar em alemão. Marta, a minha amiga que ali mora, revirou os olhos. Eu sorri. Veio-me à cabeça uma cena da série britânica “Allo Allo!”: Helga Geerhart já meia despida e Herr Otto Flick a dizer-lhe: “You may kiss me now!”
A “Helga” da estação não me reembolsou, apesar de eu ter um bilhete de “intercidades” e ser forçada a fazer grande parte da viagem no “regional” – nem nós nos lembrámos de lhe perguntar por isso. Mas o revisor não se esqueceu de me ordenar que mudasse de sítio ao perceber que o sono me fizera sentar no primeiro lugar que me aparecera à frente e que o primeiro lugar que me aparecera à frente … fora uma confortável cadeira do vagão de primeira classe.
Nada de ressentimentos. Esta sucessão pode acontecer em qualquer parte do mundo. Mas acontecer ali, na fase que a Europa atravessa, parecia-me uma metáfora.
Não tenho pachorra para a narrativa, serôdia, do Norte “eficiente” e do Sul “incapaz”. A realidade é tão mais complexa.
Nem de propósito. Oito dias antes, o economista Marcel Fratzscher lançara um livro com um título sugestivo: “A ilusão alemã”. E a revista “The Economist”, que consegui comprar na mudança de comboio em Liége, resumia-as assim: a Alemanha 1) está convencida de que permanecerá forte se fizer o que tem feito; 2) acha que não precisa da zona euro; 3) pensa que os seus parceiros só querem o seu dinheiro e que os contribuintes alemães são as verdadeiras “vítimas” dos planos de resgate.
Continuei a ler sobre o assunto, já dentro do avião para o Porto, na edição dominical do diário “El Pais”. Fratzscher é presidente do Instituto Alemão de Investigação Económica. Sabe muitíssimo bem o quanto, nos últimos cinco anos, o PIB cresceu, o desemprego encolheu, as exportações subiram, mas também sabe que a economia alemã tem estado a crescer abaixo da média da zona euro – dois em cada três trabalhadores ganham menos agora do que ganhavam há 14 anos; e a pobreza aumentou ao ponto de já afectar uma em cada cinco crianças.
O que se passa? O recuo no desemprego fez-me muito por via do trabalho parcial/precário; o avanço das exportações explica-se mais pelo congelamento dos salários do que pelo aumento da produtividade; e os alemães “poupam muito, mas mal”, diz o perito. Guardam poupanças lá fora. E o que é preciso é investir, mais do que tudo, nas infra-estruturas do país. De outro modo, vêm aí sarilhos.
Não saí descansada do avião. Com o mal deles não vivemos nós bem. Por mais que as “Helgas” deste mundo nos irritem – ou façam rir.
Ana Cristina Pereira Jornalista do Público