Pode a Madeira viver sem o Diário de Notícias? Poder até pode... mas não é a mesma coisa!
Conheci “pessoalmente” o DN exatamente há 38 anos quando cheguei à Madeira. Mas os outros cem anos não me são estranhos. Posso pressenti-los na solidez britânica com que o DN resistiu às intempéries e aos assaltos dos piratas. Há neste jornal um sorriso enigmático de Gioconda e um saber acumulado que só uma longa vida de 138 anos traz consigo.
O diabo sabe muito, não por ser diabo, mas por ser velho!
Ortega Y Gasset falou do homem e das suas “circunstâncias”. Tal como o homem de Gasset que incorpora na sua identidade e no seu destino as “circunstâncias” que o envolvem, também o DN reflete na sua identidade e no seu trajeto as “circunstâncias” que definem esta Madeira que o 25 de Abril tanto mudou.
Esta Madeira que confortável numa merecida autonomia, logo quis gerir as suas vantagens mas não cuidou da competência, rigor e transparência que tal gestão exigia.
Esta Madeira que durante quatro décadas viveu numa democracia obliqua e assimétrica, governada por um único partido inchado e poderoso, uma oposição anémica e conformada, uma sociedade dependente e assustada.
Esta Madeira que deslumbrada com o dinheiro fácil e fascinada com as suas pontes e furados, reconhece agora dolorosamente a fragilidade dos seus recursos, a ausência de credibilidade e o peso de uma dívida enorme.
Esta Madeira que assiste desconfiada a uma espécie de perestroika doméstica, inaugurada oficialmente a 2 de Novembro de 2012 por Miguel Albuquerque. Por entre ajustes de velhas contas, consciências adormecidas e promessas de mudança, tentam endireitar o que se calhar, tarde ou nunca se endireita.
Mas voltemos ao DN e às suas “circunstâncias”.
O poder político, incapaz de conviver com a liberdade que o DN tentava proteger, soltou o seu maniqueísmo doentio que transforma em inimigo quem lhe não é fiel. O poder empurrou o DN contra a parede e sem querer, vestiu-lhe as vestes brancas das virgens e armou-o cavaleiro da ordem de D. Quixote.
Na ânsia de asfixiar o inimigo, o poder desvia-lhe a publicidade e proíbe a sua distribuição nas instituições públicas. Tudo em favor de um falso jornal que todas as noites tira do nosso bolso 12 mil euros. O poder não se apercebeu que em troca de tudo o que tirou …. deu ao DN uma causa para defender e uma missão a cumprir!
A todas estas “circunstâncias” tão diversas e tão adversas, o DN teve que se ir ajustando numa lógica pragmática de sobrevivência. Não sei se em qualquer momento esse ajustamento tocou ou moldou negativamente a identidade do DN. Mas sei que este diário nunca deixou de ser um espaço aberto a uma sociedade ainda cheia de medos, mas que pouco a pouco entendeu que no DN pode dizer o que pensa e já sem receio de fantasmas, até assina o seu nome por baixo.
O DN tal como a Nau Catrineta, tem muitas histórias para contar. Mas há uma para mim exemplar, pois mostra o respeito do DN pela pluralidade de opiniões, a sua importância na opinião publicada e que é um jornal que não guarda ressentimentos.
Em Junho de 2011, a Comissão Política do partido no poder comete um erro “crato” e em vez de incentivar os seus militantes a escreverem cada vez mais artigos de opinião no DN … proíbe-os! Eram tantos quantos os apóstolos da última ceia sem contar com o “Judas” que continuou a escrever no DN. E lá tiveram de entregar as suas canetas na Rua dos Netos ou no jornal da Madeira.
Ei-los agora de volta e uma pergunta se impõe!
Porque não escrevem os seus artigos no jornal do seu ainda presidente?
Resposta: é que eles sabem que nós sabemos que eles sabem, que até podem escrever no jornal da Madeira. Poder até podem... mas não é a mesma coisa!
Manuel de Brito