O seu segredo - um selo invisível mantém-no, sepulto, amordaçado. Um selo feito de vergonha e susto. Annie cala-se. Ele roubo-lhe a voz, aferrou-lhe a voz, aferrou-lhe as palavras da impossível confissão que tanto a martiriza. É que ele reina sobre ela pela dor e pelo medo. Não cessa de lhe provar a sua omnipotência. Magoa-a, troce-lhe os punhos e puxa-lhe os cabelos para a forçar a executar os seus desejos, e aterroriza-a ameaçando matá-la se porventura se atrever a gritar. Às vezes, abate-se sobre ela e adormece abruptamente depois de consumado o seu prazer. Ela sufoca sob o peso morto deste corpo repleto de álcool e de gozo. Parece-lhe então sentir o peso da laje que tapa a pequena May.

Depois de abusar dela, não é raro que ele tente sossegá-la - seduzi-la e domesticá-la. Finge então doçura e cumplicidade. « Minha pequenita Annie, estás bem comigo, gostas das minhas carícias ? Não fazemos nada de mal. É belíssimo amar-nos como nos amamos. Os dois a valer. Mas os outros são maus e invejosos, de modo que não devemos dizer-lhes nada. Mesmo nada, e nunca! Juras-me, que não contarás a ninguém? É o nosso segredo, o nosso grande segredo só de nós! Convém guardá-lo assim. » E despeja-lhe mentiras, murmura baixinho contra o seu ouvido. Mas a maior parte das vezes ameaça-a, e é com isto que a sujeita.

Todas as noites Annie se deita com um nó de medo no ventre e raiva no coração. Acorda várias vezes em sobressalto; ao mínimo ruído, vira-se para a janela.

É por ali que ele entra. Trepa o muro da horta e, em seguida, iça-se para a janela. Pode introduzir-se sem qualquer perigo. Ninguém o vê, ninguém o ouve.

Annie está reduzida ao silêncio. E até sabe fazer-se cúmplice do seu perseguidor. Sabe que as ameaças dele devem ser tomadas a sério. Louise, a linda ruiva encaracolada cujo riso cessou um dia no pátio da escola, cujo riso se calou tão brutalmente, para todo o sempre, foi ele que a matou, tem a certeza agora. Que a forçou a matar-se. Vinha a fotografia dela em todos os jornais e escondeu-a na sua caixa de segredos, com a de May. Vinha a fotografia dela em todos os jornais. Uma menina loura , de olhar doce. Usava duas grandes tranças que lhe emolduravam o rosto, como a de May . Os artigos diziam que a menina se enforcar uma noite no sótão da casa, sem que nada deixasse prever esse acto. No entanto, os motivos de tal suicídio eram evidentes.

Talvez ele tenha morto mais algumas. E um dia será a sua vez. Um dia já não descerrará as mãos que se diverte, por vezes, a apertar em volta do seu pescoço para a assustar e obrigá-la a guardar segredo. Estas mãos, estes dedos maus, compridos e duros - Annie sente permanentemente a sua pressão na garganta. E as lágrimas esfriam, os gritos estrangulam-se, as palavras quebram-se na garganta opressa.

Desde esse dia, Annie cessara de chorar. Mesmo quando era castigada , ou se feria. O ogre exaurira nela, de uma só vez, a fonte das lágrimas. Com o correr do tempo, as pessoas haviam de facto reparado nesta mudança, ela que outrora soltava tão facilmente soluços quanto gargalhadas, já não chorava, nunca, e aliás também não se ria. A mãe dizia-lhe a título de medo « Filha, os teus olhos estão de tal modo ressequidos que, ao passarem perto de uma vela correm o risco de abrasar e só ficarás com dois montinhos de cinza sob as pálpebras!» Mas o fogo estava no coração de Annie.

Um fogo de vergonha e de dor inconfessadas.

Há já realmente muito tempo que ela ouviu o ruído, o ruído furtivo e cambaleante dos passos do lobo. Ainda era noite quando reconheceu estes passos. E depois houve um outro ruído, mais surdo. O de um corpo que se esbarra contra a terra. E em seguida mais nada. O dia agora já despontou completamente. Enquanto mais a luz sobe, mais o terror desaperta o seu enlace no coração da Annie. Ela começa a bulir na cama, consegue endireitar-se mesmo e senta-se na cama de ouvido à espreita. Nenhum ruído. Afinal, aqueles ruídos não eram por certo os dos passos do ogre. Teve medo sem motivo. Tranquiliza-se e já se regozija. Mas para ficar plenamente sossegada, escorrega para fora da cama, apressa-se em bicos de pés à janela, entreabre-a, debruça-se. O terror apodera-se logo dela: esboça um brusco movimento de recuo e já as suas mãos tremem, o coração põe-se de novo a bater. Ele está ali. Ela viu-o, lá em baixo, estendido junto ao muro. Queda-se uns momentos petrificada a dois passos, de olhos esgazeados. Os segundos passam , depois os minutos. Mas são tão longos, tão tensos de susto, tão vibrantes também de furor, que pesam como horas. E lá fora, tudo continua em silêncio, nada acontece. Então, devagarinho, o pânico começa a diminuir no coração de Annie, e de novo recobra o uso da razão e do corpo. Se o ogre não se mexe, se ele jaz imóvel sobre a terra, é porque não teve forças para se guindar até ao quarto dela; é que perdeu o equilíbrio. Sim. O ogre está a cozer a carraspana. Logo, o perigo passou, pelo menos esta noite. A aurora já vem a nascer e, assim, o ogre não se arriscará a trepar. Ao encontro dela. No entanto, um outro pensamento se imiscui repentinamente no espírito de Annie. Um pensamento tão fabuloso que ela ainda não ousa tomá-lo a sério: « E se o ogre estivesse morto?»

Morto o irmão! Morto o lobo! Morto o ladrão de lágrimas, o ladrão de riso, o ladrão de infância! Morto, finalmente morto, o belo ogre louro! Annie pula em direcção à janela, abre-a de par em par e debruça-se com o coração a bater de esperança e inquietude mescladas. Desfere sobre o corpo imóvel o seu olhar subitamente penetrante como o de um abutre. Mas não, não está morto. Por imperceptíveis sinais Annie compreende que ele ainda vive. Não faz mal, apesar de tudo é ela a mais forte. Pela primeira vez. Os ogres são vulneráveis quando jazem desta sorte; mal adormecem na terra, longe dos seus antros, perdem os seus poderes maléficos. Pois não é verdade que o Polegarzinho rapinou ao grande ogre durante o sono? Botas de sete léguas! Botas de calçar ao contrário para retornar ao país de infância?

Não, jamais calçaria os sapatos do irmão. Tinham demasiada lama, e lágrimas e sangue ressecados nas solas. Não são os seus sapatos - mas os seus passos.! Eis o que lhe vai roubar. Os seus passos que desde uma noite de Setembro, uns três anos antes, nunca cessaram de ressoar no coração, no medo - e no ódio dela, que espalharam tanto pavor nos seus dias e noites; que escavaram a sua solidão.Tais passos, há-de silenciar para todo o sempre. Ali jaz, o belo ogre de ouro e alçafrão, de face contra o céu. Acima de tudo que não se mexa! Que se quede ali, espojado a exalar os seus vapores de álcool, os vapores do seu sangue. Daquele sangue ruim. Daquele sangue negro e louco que corre sob a sua pele clara.

Pela primeira vez, é ela que vai abeirar-se dele. Sim, ela, a pequenita que já não sabe chorar nem cantar, nem rir nem chorar. Mas desapossar o ogre dos seus passos clandestinos, dos seus passos de assassino - isso saberá.

E de repente, iluminada pelo ódio ao irmão, Annie prepara-se para realizar a sua obra de vingança; a sua obra de justiça.

Renata Camacho