Não quero tirar o trabalho a ninguém, muito menos aos que ‘se deitam a adivinhar’ a vida alheia através dos signos e da palma das mãos. Mas arrisco fazer uma previsão a meses de antecedência: no próximo Inverno vamos ter enxurradas e no próximo Verão vão voltar os incêndios. Oxalá esteja enganado, seja processado, julgado e condenado por falsas previsões. Se no caso das enxurradas não há muito a fazer, a não ser corrigir alguns erros provocados por tanto cimento, já no que toca aos incêndios confesso que me enervam sobretudo duas coisas: a destruição que fica e a pose de surpresa que alguns responsáveis põem perante estes casos. Mas surpresa com quê? Acaso alguém tem dúvidas de que nos dias mais quentes acontecem incêndios nas serras da Madeira? Será assim tão difícil imaginar que, mais dia menos dia, isto ia acontecer? Claro que não. Então, por favor, deitem areia para os fogos e não para os nossos olhos. Chega desta hipocrisia que nos faz levar as mãos à cabeça no dia a seguir à devastação, quando no dia anterior essas mesmas mãos estiveram confortavelmente nos bolsos ou a coçar a cabeça. Prevenção. Alguém, entre os que mandam, sabe o que isso é ou como se faz? É evidente que não se pode prever um incêndio em concreto, não falo disso. Refiro-me a medidas de carácter mais abrangente. Como as torres de incêndio, a limpeza das matas, a constituição de brigadas permanentes nos tempos mais quentes. Sei que mesmo assim o fogo varre tudo o que encontra pela frente, mas uma coisa é chegar a tempo outra é chegar quando as labaredas já não permitem fazer nada. Confesso que escrevo ainda sob o efeito de um misto de raiva e de desolação que me acompanhou todo o dia. Desde as 6 da manhã, quando vi as primeiras colunas de um fumo assustador, ora negro, ora avermelhado e extremamente rápido. Estava ainda na zona dos Lombos, no Monte, onde pouco depois encontrei gente angustiada. Poucas horas depois, a previsão de outro adivinho, o senhor António, o vizinho de 80 anos que no café fazia a previsão mais lógica que se pode fazer. Dizia ele: “Senhor Miguel, o lume vai dar a volta e vai passar do Monte para São Roque”. E passou. De forma natural, arrastado pelo vento ou semeado por algum criminoso, a verdade é que a imagem que tive esta sexta-feira de manhã, quando olhei para a esquerda, é a imagem que tive esta sexta-feira à noite ao olhar para a direita. Será que mais ninguém pensou como o senhor António? Se a impotência e a raiva apagassem fogos, os bombeiros já podiam descansar.