Talvez por estar a escrever estas linhas no meu último dia útil de férias (ou seja, com um misto de relaxamento e de desespero), não me ocorre nada de extenso e pesado. Aliás, assumindo que muitos dos leitores também poderão estar a gozar férias, confesso que nem me atreveria a maçá-los com algum do género… O termo “férias” vem do latim feriae que significa “dia de descanso”, estando indelevelmente associado ao “ócio”, que provém de otius e quer dizer “folga, repouso, lazer”. Apesar de muitos autores e estudiosos enaltecerem o poder criativo do ócio, pela parte que me toca, levo o descanso proporcionado pelas férias muito a sério, e evito – ao máximo – ser produtivo, ou preocupar-me com questões e matérias que obriguem a grandes divagações ou exercícios intelectuais. Tal não significa que me alheie ou que me despreocupe, mas, tão só, que considero que cada coisa tem o seu momento e enquadramento próprios. Dito isto, aqui ficam as curtas – e não muito aprofundadas – reflexões que o período de ócio não conseguiu impedir: Porto Santo De longe a melhor e mais completa praia de Portugal para estadias regulares/prolongadas. As suas qualidades e potencialidades suscitam um dilema insuperável: se o Porto Santo podia ser muito mais explorado e massificado, a verdade é que, assim como está, é que é verdadeiramente excepcional. Cavaco Silva Não consigo deixar de considerar que o Presidente foi o grande vencedor da crise política gerada por Paulo Portas. Para além de ter conseguido demonstrar aos Portugueses que os partidos políticos não são “pessoas de bem”, permitiu que António José Seguro e o PS revelassem que não são alternativas credíveis ou desejáveis. Economia Apesar do desconforto manifestado pela oposição – que, mais uma vez, deu voz à filosofia do “quanto pior, melhor” – a diminuição da taxa de desemprego, o crescimento da economia e outros indicadores económicos (aliados ao previsível regresso da Espanha ao crescimento) parecem indicar “a luz ao fundo do túnel”. É bom que a retoma não seja apenas uma miragem, e que, a confirmar-se, não determine o arquivamento das inúmeras (e essenciais) reformas que ainda estão por efectuar. Tribunal Constitucional Vai, mais uma vez, ser chamado a pronunciar-se sobre duas peças fundamentais da denominada “Reforma do Estado”, designadamente as leis dos despedimentos na função pública e dos cortes nas pensões de reforma. Mais uma hipótese para ficarmos a saber se quem criou “o monstro”, e dele se tem alimentado, deve pagar à factura, ou se esta deve ser indistintamente suportada por todos, e onerar, essencialmente, as gerações vindouras. Autárquicas I A “novela” relativa à lei da limitação dos mandatos, qualquer que seja o seu desfecho, suscita-me, desde já, inúmeras perplexidades: Custa assim tanto largar o poder? É assim tanta a necessidade de repetir/deslocar candidatos? Estarão os partidos políticos a defendê-los convenientemente e a contribuir para a credibilização da política? Não podia/devia a Assembleia de República ter resolvido esta polémica em devido tempo? Como podem as decisões dos Tribunais sobre uma mesma matéria ser tão díspares e imprevisíveis? Autárquicas II Se Paulo Cafofo for eleito Presidente da Câmara, e baixar mesmo o IMI no Funchal, para a próxima vez voto nele. Já só acredito em promessas populistas e irresponsáveis depois de devidamente cumpridas. Egipto Destruição, intolerância religiosa, mortes e estado de emergência. O balanço da “primavera árabe” – que tantos praticantes do politicamente correcto defenderam – é desastroso para os egípcios, e revelador de que nem sempre se muda para melhor. E pensar que, há cerca de 7 anos, percorri as ruas do Cairo e o seu Bairro Cristão maravilhado e em segurança. Literatura fast-food Os livros de Dan Brown e de Miguel Sousa Tavares podem não fazer as delícias da crítica intelectual e “iluminada”, mas o certo é que se deixam ler com gosto e num ápice, e são ideais para a “lanzeira” das férias. Futebol Não sei se será pelos muitos milhões desbaratados, pelas sucessivas traições dos jogadores e treinadores aos respectivos “clubes do coração”, ou pelo cada vez menor número de jogadores portugueses a jogar em Portugal, mas a verdade é que cada vez me interesso menos por futebol. Será um sinal de velhice, de maturidade ou de saudosismo? (In)tolerância selectiva A estátua do Conégo Melo (alegado “fascista” e “terrorista de extrema-direita”, que ficou conhecido durante o chamado verão quente de 1975, por ter protagonizado a luta da Igreja de Braga contra a tentativa do PCP de implantar o comunismo em Portugal) erigida em Braga foi objecto de vandalização popular. Apesar de não simpatizar com quaisquer (alegados) “terroristas” (qualquer que seja a sua orientação política), confesso que me “incomodam” mais aqueles que foram condenados pelos Tribunais e que, ainda assim, nunca deixaram de ser acarinhados pelos “defensores da liberdade e da democracia”.

Boas férias e bom ócio!! (muito ou pouco criativo)

Gonçalo Maia Camelo Advogado