Vive-se momentos de grande crise que não é apenas económica e financeira. É muito mais do que isso. Atravessamos um período de decréscimo acentuado de valores e princípios que devem nortear todo o ser humano. Deixou-se de dar valor às pessoas e centra-se toda a linha de orientação e conduta em obter bens materiais e poder que permita avultados ganhos financeiros mesmo que isso implique esmagamento de pessoas. A pobreza alastra quando se dispõe de melhores meios para combater este flagelo que envergonha qualquer sociedade desenvolvida. As pessoas têm cada vez menos oportunidades de acesso ao mundo do trabalho, em especial os mais jovens, perante uma sociedade egoísta fechada sobre si mesma que lhes tiram o direito de poder desenvolver as suas aptidões e de serem felizes, deixando-os frustrados e sem esperança no futuro. Os idosos têm de ser forçosamente pobres, viverem em condições degradantes, sem hipóteses de poderem gozar os últimos anos de vida com dignidade e respeito que merecem depois de terem contribuído durante anos e anos para o crescimento e desenvolvimento das sociedades onde estão inseridas. Cada dia que passa há mais sofrimento, casos relatados sobre situações degradantes de famílias que nos deixam perplexos e que nos horroriza perante tanta insensibilidade social de quem tem responsabilidade política. Corta-se tudo, tira-se tudo, postos de correio, centros de saúde, serviços de urgência, escolas, diminuem-se freguesias, apoios sociais e isolam-se mais populações, tudo em prol do controle da despesa pública e da necessidade de ajustar a mesma à dimensão e capacidade produtiva do país e da receita gerada que se admite que tem de existir mas com defesa dos valores sociais. Só que a teimosia levou a este duro caminho sem resultados à vista com metas irreais e que agora perceberam que têm que alterar. Recordo uma frase de Charles Handy, no seu livro «Espirito Faminto», «Errámos quando depositamos a nossa fé numa ideologia egocêntrica pura e quando deveríamos ter confiado mais na nossa humanidade do que no sistema». Precisamos de alguém que nos governe como pessoas, não como um custo e com direito a uma vida digna e no acreditar no dia de amanhã.

José Manuel Oliveira