Alberto João Jardim, a regressar por estes dias de mais uma daquelas viagens que ninguém compreende para que servem nem o que ganhamos nós com isso, deu, mais uma vez, o exemplo. O presidente do PSD-Madeira meteu-se recentemente no carro do presidente do Governo Regional, levou motorista e dois adjuntos e andou uma tarde inteira por Santa Cruz em reuniões com militantes do seu partido. Tudo em horário de trabalho. Tudo às claras. A chatice foi o DIÁRIO ter aparecido, sem ser convidado para a festa, e assim ter obrigado o presidente a mudar de carro e apanhar boleia do candidato do PSD. Não fora esse pequeno contratempo e o passeio passava que nem água na ribeira. Como parece ter passado, a julgar pela normalidade com que esta anormalidade é encarada na Madeira. Mas aquele já nem é caso único, longe disso. Ainda esta semana assistimos a mais dois exemplos deste à-vontade, para não lhe chamar descaramento, como o partido e o governo se confundem. Talvez por ser novo nestas andanças, Pedro Coelho conseguiu a proeza de fazer uma espécie de três em um. Ou mais! Foi deputado, foi secretário regional das obras públicas, foi secretário regional dos professores e já fala como presidente da Câmara. Está bem que o povo sabe que um dia há de ser, e que esse dia está próximo. Mas, caramba, cada coisa a seu tempo. Com a pressa e o conforto de quem se sente diferente dos outros, mesmo que candidato igual aos outros, o do poder foi ao Jardim da Serra, viu buracos na estrada e já tratou de os mandar remendar. Mesmo que essa ‘ordem’ não tenha qualquer valor, a verdade é que para o povo incauto, aquele senhor já manda. Problema resolvido, voto garantido. Não satisfeito, o candidato resolve ouvir os professores da terra, numa iniciativa que tem tanto de boa-vontade como eu de rico. Nada mais fácil: a delegada escolar pega no telefone da Delegação Escolar e ‘convida’ os professores para uma reunião com o candidato do PSD em horário de trabalho. E os professores, com uma excepção, lá foram. Estes são apenas três exemplos, quase ridículos, da confusão entre partido e governo. Mas muitos outros haverá que são por quase todos tomados como uma atitude normal de quem se habituou a confundir o poder dos madeirenses com a herança da velha tia rica. Puro engano. Não dos herdeiros, mas dos madeirenses que fazem o papel da velha tia rica quando muitos deles andam a bater à porta da caridade. Agora pergunto: E que faria a zelosa delegada escolar de Câmara de Lobos se qualquer partido da oposição lhe pedisse o mesmo? Diz que assim, que o faria. Talvez. Mas não era a mesma coisa. E que fariam as rigorosas autoridades governamentais se um qualquer candidato da oposição fizesse público anúncio que as tinha contactado no sentido de serem asfaltadas as estradas de uma freguesia? Agora, avisados, certamente diriam que teriam tomado boa nota da recomendação. Talvez. Mas todos sabemos que não era a mesma coisa. E que faria a impoluta presidência do Governo Regional se algum líder partidário fosse à Quinta Vigia buscar carro, segurança e assessores para tratar da sua vida partidária. Certamente mandaria chamar a polícia, processava e enxovalhava. Com o dinheiro dos nossos impostos. Estes três exemplos de total ausência de pudor não são mais do que isso mesmo, exemplos. Maus exemplos. Mas que parecem bem aceites por um povo anestesiado, agachado, resignado a tanta ostentação. A verdade é que o sistema, tal como está montado, funciona. E o sistema não passa apenas por trapaças feitas à vista de gente. Passa, sobretudo, pela mão indelével de uma poderosa máquina partidária que faz aparecer uns e desaparecer outros à medida da conveniência dos mesmos de sempre. É por isso que daqui até às eleições, qualquer pretexto, qualquer festa, qualquer beberete, qualquer demonstração de caridade, qualquer coisa que possa cheirar a coisa dada, terá sempre algo em comum: um palco para onde essa poderosa máquina partidária fará convergir todas as pessoas que o partido quer mostrar. Por falar nisso: alguém sabe como ficou o caso do palco emprestado pela Direcção Regional do Turismo para a festa do PSD?