Invocar a memória de Francisco Sá Carneiro, que me levou á leitura de Mounier, nos primeiros anos da democracia portuguesa é, acima de tudo, um apelo contemporâneo ao “compromisso pessoal”, “á eminente dignidade humana” e ao “acontecimento” como mestre interior. Recordo com saudade os voos de segunda-feira á noite do Porto para Lisboa, nos finais dos anos setenta, na companhia de Sá Carneiro onde analisávamos a política do país e projetávamos o fortalecimento do Partido, em todas as frentes, incluindo a sindical. Num tempo de incertezas, como hoje, a obra de Mounier ocupa um lugar particular no nosso panorama intelectual. A sua leitura se projecta ainda no futuro como uma aposta séria numa cultura de liberdade, de responsabilidade e de justiça. Ao ler os textos de Mounier percebemos bem que correr riscos (sujar as mãos) é fundamental para procurar a justiça animada pela verdade. Mounier procura fazer do compromisso (engagement) a ligação entre o respeito da “eminente dignidade humana” e a realização das acções necessárias á justiça, á verdade e á dignidade a partir dos “sinais dos tempos” de que falará João XXIII. Para Mounier, os valores são realidades absolutas. Não é possível subordinar a pessoa a um abstrato impessoal. Para Mounier, os valores não são, assim, ideias gerais ou desenraizadas – “são fonte inesgotável e viva de determinações, exuberância, apelo irradiante: como tal revelam uma como que singularidade expansiva e uma proximidade com o ser pessoal, mais primitiva do que o seu deslizar para a generalidade”. Mounier sempre recusou separar o corpo e o espirito – do mesmo modo que não aceitou encarar a realidade histórica que o cercava sem uma filosofia de compromisso, que significaria um pensamento em acção. “O compromisso pode revestir diversas formas: é humano, ético, político, espiritual, segundo a dimensão da acção que domina. Mas nenhuma das formas pode ser pensada de modo totalmente independente por referência às outras”. Só quem lidou de perto com Francisco Sá Carneiro pode compreender a importância que teve para ele Mounier e o “compromisso” na sua formação integral como politico e como homem. “A pessoa toma consciência de si própria, não no êxtase mas na luta de força.” Afinal, “o amor é luta; a vida é luta contra a morte; a vida espiritual é luta contra a inercia material e o sono vital”. No fundo, o que quer dizer é que alguém só atinge a plena maturidade, no momento em que “opta por fidelidades que valem mais do que a vida.” Nisto e para isto, ao lermos Francisco Sá Carneiro, encontramos constantemente uma procura entre o discurso, a qualidade de homem e a acção. O seu estilo inconfundível, em suma, recusa separar o combate das ideias, o trabalho de elaboração de um pensamento da presença na frente da actividade politica e social, nas lutas travadas em nome da justiça, da liberdade e da paz. Francisco recordava frequentemente Mounier quando dizia: “a pessoa apenas encontra a sua realização na e pela acção, no e pelo compromisso.” Esta forma original de descrever a pessoa explica que não há conhecimento directo da pessoa por si própria; ela só se assume numa “adesão vivida”. Quando oiço estes “senhores” falarem na “Reforma do Estado” apetece-me dizer-lhes que o melhor Estado é aquele em que a dignidade humana é garantida para todos os cidadãos. Sabedoria, coragem e moderação serão determinantes. E a justiça estará presente, todos os cidadãos terão aquilo a que têm direito e de que necessitam. Todos sabemos que não existem sociedades perfeitas mas as sociedades imperfeitas, como a nossa, não devem ser diabolizadas porque, nomeadamente, pela acção política, é possível melhorá-las. Todo o cidadão comprometido com a democracia entende aqui o lugar do compromisso que, segundo Mounier, permite construir uma verdadeira filosofia do cidadão activo – uma filosofia dos valores. Quando Paulo Portas se dirigiu aos portugueses para justificar a sua impossibilidade de ultrapassar a linha vermelha a que correspondia a nova TSU para os reformados mais não quis que manifestar a importância do compromisso politico que assumiu com o seu eleitorado na defesa dos valores da Democracia Cristã. Foi sol de pouca dura porque dias depois o intransponível tornou-se possível desde que a oportunidade fosse diferente. De facto, o que diferencia os pequenos políticos dos grandes estadistas é o lugar do compromisso. É pelo acolhimento dos valores que a pessoa se abre às outras pessoas, e isto de modo ilimitado. Os valores oferecem a capacidade de compreender o mundo: não tiram o homem da sua condição, mas abrem-no ao universo. O valor revela-se na acção e volta a descriminar a acção política propriamente dita em virtude do desprestígio do político. Neste sentido, diz Mounier, será preciso estar na política sem ser da política. Somos muitas vezes levados no sentido das encruzilhadas que não definimos, obrigam-nos a escolhas incompatíveis com a solidão das posições puras. Francisco Sá Carneiro dizia, citando muitas vezes Mounier que, em cada momento, há sempre dúvida sobre a pertinência de uma opção politica. O mérito aqui é um voltar a dar nobreza e sentido á acção politica assumindo o compromisso como regra.
José A. Roque Martins