Duarte Melim A propósito da onda de contestação e dos tumultos que o povo turco tem desencadeado, e que teve como gota de água, a construção de um centro comercial moderno numa zona de jardim, próximo da emblemática Praça de Taksim, ontem ouvia uma manifestante a expressar a sua indignação pela possível destruição desse espaço verde, fundamentando-a em argumentos que, para nós, deveriam servir de lição. Então a jovem era da opinião que aquele jardim, constituído por aquele espaço aprazível, era do povo turco, que aquelas árvores tinham anos que lhes permitiu percorrer várias gerações humanas, guardando delas memórias inalienáveis, e como tal, essa memória devia ser preservada, porque memória é cultura. Outra jovem entrevistada teve um discurso afim, e achei admiráveis estes testemunhos, os quais partilho sobretudo porque há quem, na nossa geografia, tenha preconceitos relativamente a certos povos, oriundos de países que, supostamente, ainda estão aquém do nosso desenvolvimento e, cuja democracia, pensam, ainda é imberbe. Todavia, ao invés deles que, unidos, movidos por consciência cívica, além de irem impedir a construção do dito centro comercial, aproveitaram para mostrar a sua revolta contra as tentativas de implementação na Turquia, do Estado Islâmico. Aqui, na Madeira, de forma passiva, assistiu-se à destruição de tantos espaços verdes, assistiu-se à descaracterização da paisagem, assistiu-se a despejos desregrados de entulhos e terras para o mar, ainda se assiste a violações grosseiras das mais elementares regras da democracia, com a complacência do povo moderno e desenvolvido que, na sua mediocridade, prefere continuar a seguir os episódios novelescos, a partilhar palermices nas redes sociais ou a discutir as incidências do futebol. E eu pergunto: quem é que é, afinal, desenvolvido?