“É muito bonito quando se olha para o ajustamento em Portugal.” “O ajustamento do sector privado foi notável, exactamente como foi previsto”. Estas são afirmações de Vítor Gaspar feitas na conferência “Plano para uma união económica e monetária efectiva e aprofundada”, realizada recentemente em Bruxelas. Parecem afirmações dum sociopata que considera bonito um ajustamento que está a trazer a fome e a miséria a centenas de milhares de portugueses. São afirmações que deitam por terra todas as chorosas declarações de pena pelo aumento assustador do desemprego, quando assume que o ajustamento que está a arrasar o sector privado e a provocar o crescer assustador do desemprego foi “exactamente como o previsto”. Dois anos de Troika serviram para mostrar o falhanço das suas políticas e desfazer os enganos que provocou. Tudo está ao contrário do previsto. A dívida subiu para mais de 127,3% do PIB até Março deste ano. O défice orçamental poderá atingir, segundo algumas previsões, os 6,6%. Temos 1 milhão e meio de desempregados e só 44% deles auferem de subsídio de desemprego. Mais de 30% dos Portugueses já vive abaixo do limiar de pobreza. Os salários reais dos trabalhadores baixaram drásticamente e com a “Troika” só foi criado emprego pago até 310 euros - DN nacional de 10/05/2013. A Troika exigiu a alteração das Leis laborais para criar mais emprego - deu num aumento assustador do desemprego! Agora dizem que é preciso despedir ainda mais no Estado e cortar nos salários e pensões para ajudar ao crescimento económico. Será que há quem acredite neles? Uma das mentiras mais recorrentes é a de que não há dinheiro para garantir as funções sociais do Estado. Vejamos este quadro elaborado pelo economista Eugénio Rosa: Há dinheiro para as funções sociais do Estado. É para garantir o pagamento dos juros da dívida e depois o serviço da dívida. Para isso não hesita em querer despedir pelo menos mais 30 mil funcionários, cortar em 2014 e 2016 11,1% nos que se reformaram pela CGA até 2005, 9,6% nos que se reformaram até 2007 e 8,3% nos que se reformaram até 2012 - segundo dados do Expresso, violando os contratos feitos e até introduzir uma taxa de sustentabilidade sobre todas as pensões, do sector público e do privado. Essa taxa de sustentabilidade, cujo valor é de cerca de 430 milhões de euros, tem andado nas bocas do mundo pela mão do CDS e de Paulo Portas, ao contrário do corte retroactivo de 10% em média das pensões que já estão a ser pagas pela CGA e que valerão mais de 700 milhões de euros. E por mais que PP e o CDS se esforcem não conseguem demonstrar que a ameaça desapareceu, pois a medida está lá e será para usar caso as coisas corram mal. Ora os falhanços das previsões e execuções orçamentais de Gaspar são por demais conhecidos. Não será de excluir vêr PP por razões patrióticas, para evitar um segundo resgate, a aceitar essa miserável medida... Para ajudar a este assalto a todos os que contribuiram e contribuem para os sistemas de Segurança Social em Portugal, temos agora o ataque final ao Fundo de Estabilização da Segurança Social. Segundo o Diário Económico, Vítor Gaspar quer que 90% desse Fundo, seja utilizado na compra de dívida pública. Quer isto dizer que quer pegar nos descontos dos contribuentes para a Segurança Social e pô-los a correr enormes riscos. Amanhã baixam os juros da dívida e a SS perde. Amanhã, como já aconteceu na Grécia, há um corte na dívida e lá se vai parte do Fundo e com isso uma quebra enorme das pensões. No imediato, quando fôr preciso por falta de receitas recorrer ao Fundo, poderá não haver dinheiro disponível... Esta ânsia por dinheiro fácil está a matar o País e os trabalhadores e reformados. Não se vai buscar dinheiro por exemplo a quem foge ao fisco e em particular para os paraísos fiscais - esta fuga em 2011 era de 25,4% do PIB, ou seja, 43,4 mil milhões de euros. Escolhe-se empobrecer sempre os que vivem ou viveram do seu trabalho numa ânsia de fazer de Portugal uma mini-China em termos laborais e sociais. Não podemos deixar que tal aconteça!

Paulo Martins