João Barradas Muito interessante a relação dos portugueses com a banca. Inicialmente, quando o crédito disparava e a construção enchia todos os terrenos que se fossem encontrando vazios, a banca era o nosso melhor amigo. Emprestava o dinheiro para pagarmos a vivenda t5 (isso de morar num t2 era para pobre), o BMW station (que o Renault Clio não faz jus ao nível), até aquelas férias nas Caraíbas e no Brasil. Enfim, tudo o que nos desse direito uma boa vida. O banco era o nosso melhor amigo. Ele “dava-nos” o dinheiro com que construíamos essa vida melhor (ilusões). Ele era através de períodos de carência (“Compras agora e ficas a pagar uma miséria!”, pois e depois?), ou através de spreads zero (impossíveis de manter por muito tempo). Os bancos também foram nossos amigos de outras formas, emprestando dinheiro para construirmos as nossas estradas que nos ligam rapidamente e confortavelmente ao nosso destino (mesmo que sirvam só meia dúzia de pessoas), dinheiro para remodelarmos as nossas escolas (mesmo que para umas parcas dezenas de alunos e com materiais de construção a preços muito acima do mercado). Emprestou dinheiro para fazermos as piscinas, pavilhões multiusos, centros culturais e demais infra-estruturas públicas para as quais hoje em dia não temos dinheiro para as manter (sim aquelas que nos enchiam de orgulho por as termos na nossa terra. Se os outros tinham porque é que não havemos nós de ter?). Imagine-se só que até o novo Centro de Saúde também foi feito com recurso a empréstimos do banco, tal como o novo e moderno edifício da Junta ou da Câmara. Vá lá que esses empréstimos tinham ajudado a realizar as festas da terra ou da cidade, ajudando a trazer o Tony Carreira e os filhos… Sem dúvida os bancos eram uns amigalhaços! Que malta porreira…até nos davam empregos (imagine-se só!). Não bastava darem-nos já acesso a boa vida, ainda nos davam empregos e com bons ordenados! Mas que amigos… Até que um dia, o banco se virou para nós e começou a exigir a cobrança das dívidas… - Espera lá, dívidas? Quais dívidas? - Sim… Então aquelas que contraímos para termos esta boa vida. - Contraímos!? Espera lá, eu só comprei a minha casa nova, o meu carro novo e umas feriazitas que fui merecendo… - Então e as estradas, as escolas,...? - Isso foi o Estado, eles que paguem!! Eu é que não tenho nada a ver com isso. Esses políticos corruptos, ladrões, mentirosos e corruptos que andaram a encher os bolsos é que se meteram nisso… Entretanto a nossa prestação do banco vai aumentando (acabam-se os períodos de carência), e o nosso rendimento já não aumenta como até aqui. “Afinal este banco já não é assim tão amigo. Estes tipos já me começam a chatear...”. Começam os aumentos de impostos, a redução real dos salários (enquanto fomos andando ocupados com a nossa boa vida esquecemo-nos de meter o País a crescer. Haviam coisas mais divertidas para fazer.) A banca começa a cobrar a continha ao Estado. Este vendo-se aflito para a pagar acelera o aumento de impostos e os cortes salariais… Começamos a ter que tirar os miúdos do colégio privado e das actividades fora da escola, de forma a fazermos face à redução de rendimento. A banca começa a receber elevadas quantias de dinheiro por via da cobrança dos empréstimos aos privados e Estado (aqueles que serviram para nos dar o tal conforto). - Estes bancos levam-nos tudo…esses senhores do alto capital deram-nos uma facada nas costas. Deixam-nos sem nada…e esses políticos, ladrões, deixam-se levar por estes tipos…querem é o tacho e meter o deles no bolso! Ora, o que começou por ser uma relação de amizade, cresceu para uma relação de grande afectividade (o meu amigo banco!), acabou agora por se tornar numa relação insuportável. Esta conversa é aquilo que alguém sensato (aqueles que param para pensar e analisar os factos) sabe que aconteceu, e que é preciso fazer. Mas dói. Dói muito assumir que fomos “traídos”, distraídos e caímos na cantiga do vigário... mesmo sem o vigário, porque quem enganou fomos nós próprios... a nós próprios...