As lágrimas correm-me pelas faces sem pestanejar.
Aqui tudo é claro.
Histórias, contar histórias, para passar o tempo, mas as histórias não fazem
passar o tempo, nada o faz passar, não importa, é assim, conta-se qualquer coisa dizendo: isto não são histórias, mas continuam a ser histórias, ou melhor nunca houve histórias, foram sempre coisas sem sentido, contou-se sempre coisas sem sentido, tanto quanto nos lembramos, não? Muito antes disso não nos lembramos de nada.
O silêncio, falar do silêncio. Mas antes de falar, já terei estado dentro dele, estou sempre dentro dele e agora é dele que falo, sabia que havia de chegar a altura, saio dele para falar, estou nele enquanto falo, se é que sou eu quem fala e não sou eu, mas terei estado nele durante muito tempo, uma longa estada, não percebo nada do tempo, não posso falar dele mas falo, digo nunca e sempre, falo das estações e das partes do dia e da noite. A noite não tem partes para as pessoas que estão a dormir, à noite as estações devem ser todas parecidas. Neste momento talvez estejamos na Primavera, são palavras que me ensinaram, sem me terem mostrado bem o que significa, foi assim que aprendi a raciocinar: emprego todas as palavras que me mostraram e eram listas e listas, com imagens apropriadas, devo ter misturado as imagens sem nome que devo ter .
Nomes sem imagens. Janelas a que talvez devessem chamar portas, enfim, chamar de outra maneira, e a palavra homem que talvez não seja a mais adequada para eu o ver ao ouvi-la, mas…
Como é que se pode reproduzir um instante, uma hora, e assim por diante?
Como é que se pode reproduzir uma vida?
Como é que poderiam mostrar-me tudo isso, aqui, no escuro, chamo a isto escuro, talvez seja azul, são palavras neutras, mas emprego-as, elas aparecem, são as que me mostraram, aquelas de que me lembro, preciso de todas, para poder continuar.
Não é verdade! Vinte bastariam, fiéis, bem fixadas, bem variadas, se tivesse uma paleta misturá-las-ia, variá-las-ia, se tivesse uma escala, as coisas que eu faria, se pudesse, se quisesse, aliás já sei, é assim que tudo acabará, afinal de contas, é o fim, o fim da conta, é o silêncio, sobre o silêncio verdadeiro, e não este em que estou a macerar, até à boca, até ao ouvido, o silêncio que me recobre, me descobre, respira comigo, como um gato respira com um rato, o verdadeiro, o dos afogados, já me afoguei, por vários vezes, mas não era eu, já me asfixei, já ateei fogo a mim mesmo, não fiz nada a ninguém, ninguém me fez nada, não há ninguém, eu bem procurei, só existo.
Sou: INSTANTE.
Não tenho explicações a dar, nem a pedir, a vírgula surgirá no ponto em que me afogar definitivamente, e haverá silêncio e acredito neste fim de dia, ainda é o fim do dia, demora tanto a passar…Estou de acordo, talvez estejamos na Primavera, as violetas, não?! Ah, isso é no Outono, cada coisa no seu tempo, não souberam explicar-me as coisas que passam, não souberam mostrar-me as coisas que mexem, desaparecem e voltam, uma luz que muda e também a morte e uma voz que morre e por fim o silêncio e nem um murmúrio.
É uma prisão enorme, como cem mil catedrais, sempre a mesma coisa, a partir de agora e lá dentro um sítio qualquer imobilizado, ínfimo, o detido, como encontrá-lo? O espaço é tão falso, de repente é tão falso querer estabelecer relacções nesse espaço, querer colocar um ser nesse espaço, numa cela bastaria e se eu desistisse ?
Se pudesse desistir antes de começar, antes de recomeçar e este arquejar, sim, sim, são exclamações abertas para o nada, sim, de acordo: são palavras abertas para o silêncio, dando para o silêncio, directamente. Porque não? Todo este tempo, à sua beira eu tinha que saber, eu tinha que saber que a grande vaga do silêncio erguer-se-ia para mim, inundar-me-ia. É uma poderosa imagem e são palavras para eu dizer que : estou num sítio qualquer para me porem lá fora.
Porque dói tanto.
Renata Camacho