O calor do verão, já o disse uma vez nestas páginas, instaura em mim uma espécie de letargia que me faz esquecer os problemas do mundo e concentrar-me nas pequenas coisas da vida. Não sei se é por causa de não ter nada de importante para fazer, se é por ter tempo para sentar-me de esplanada a apreciar o que os outros fazem, mas o certo é que o estio tem este efeito em mim, impondo-me certas constatações que me não deixam de perturbar na medida em que desnudam o absurdo da existência humana.

Há dias, por exemplo, estava eu a saborear uma cerveja bem gelada sob o calor desértico do Porto Santo quando a minha atenção se deixou prender a um homem que, acompanhado de duas senhoras, passeava um cão minúsculo. Confesso que a cena era, no mínimo, curiosa. O homem, provavelmente dono do canídeo, tinha um aspeto boçal que contrastava com a fragilidade do animal. Ele, o homem, de ventre cheio e barba mal feita, trazia pela coleira o outro, a amostra canina, deixando-se conduzir por esta que, hirta e em passo apressado, saltitava rumo à passadeira. O dono esforçava-se por satisfazer o cão que, de riso aberto, parecia, subentenda-se o paradoxo, o dono do dono e até do universo. As senhoras, claro está, participavam na cena como figurantes. Não tinham espaço para protagonismos naquele filme, pois o homem só tinha olhos para o cão de algibeira. Ria-se sozinho, satisfeito, não contendo em si a vaidade pelo animal que, sempre saltitante, exibia a sua esperteza pelas ruas da ilha vizinha. E eu, de esplanada - lá está, a esplanada -, sorria, sensibilizada, perante o humanismo do quadro que deixava a descoberto a simbiose quase perfeita entre os mundos racional e irracional daqueles dois.

Eis, no entanto, que subitamente o encanto se quebrou. Outra senhora, desta feita ao volante de um automóvel com três crianças, parara para dar passagem ao harmonioso grupo de orgulhosos bípedes e feliz quadrúpede. Não dera à primeira por ele, pelo grupo, razão pela qual apenas tivera tempo de travar já sobre o zebrado da passadeira, esboçando um gesto de desculpa pela sua distração. O dono do canídeo, estupefacto pela ousadia da condutora - como se atrevia ela a ignorar a magnificiência do seu "lulu"?! -, metamorfoseou-se então numa espécie de pittbull e, numa explosão de raiva, lançou aos quatro ventos os mais engenhosos e rebuscados impropérios à protagonista de tal insolência que, encolhida e muda no assento da viatura, não via a hora de arrancar. Ela e os miúdos que, de olhos arregalados e boca aberta, tentavam em vão esconder-se no interior do veículo. As acompanhantes do furibundo amigo dos animais queriam esconder-se também, pedindo, a voz pequena, contenção. Afinal, o carro apenas pisara a passadeira e não houvera mal de maior nem de menor. Mas podia ter assustado o cachorrinho! - vociferou o homem, arrastado pelo frenético animal que, sempre de dentuça rasgada, nem dera pelo automóvel e, muito menos, pela "audácia" da automobilista, alvo da malcriadez do seu fiel servidor, digo dono.

O instantâneo dissipou-se com o carro e os caminhantes a desaparecerem, cada um para o seu lado, enquanto eu me via a tentar perceber que raio de mundo é este onde há gente que, sem qualquer constrangimento, maltrata um ser humano, humilhando-o publicamente e reduzindo-o a nada, e, ao mesmo tempo, se desfaz em mimos para com um animal.

É óbvio que o absurdo da situação resulta não do bom trato ao cão, mas sim do mau trato ao ser humano. O absurdo resulta do facto de, devido à crise, à falta de dinheiro ou, simplesmente, à falta de educação, andar por aí muita gente azeda que, à conta desse azedume, despeja a ira no alvo que está mais à mão - o outro, comum mortal que, por acaso, está no mesmo barco à deriva.

Ninguém, na verdade, me tira da cabeça que este é outro dos preços a pagar pelo paradigma que, há mais de 30 anos, o discurso político, seja ele da governação, seja da oposição, instaurou na Madeira. Muitos habituaram-se à grosseria, ao deboche, à maledicência e, sobretudo, à brejeirice da classe política que, através dos media e de cartazes espalhados por todo o lado, fez da falta de modos a melhor arma para singrar e disfarçar fragilidades e erros. Imitam-na. Fazem dela o seu próprio estilo. E agora é o que se vê: uma chusma de desbocados que, à conta dos malogros da vida, despeja a bílis nos seus pares anónimos, encontrando, assim, a forma de mitigar os seus males.

De volta ao episódio do cão miniatura, lembrei-me de que Ghandi disse um dia que a grandeza de um povo se media pela forma como cuidava dos seus animais. Eu concordo, mas acrescento que, da maneira como as coisas correm por estes lados, a sentença carece de reformulação. É que muitos não têm a mesma grandeza no que toca a animais e humanos. Preferem aqueles a estes. E isto é que é, para mim, o cúmulo do absurdo porque, que me perdoe o quadrúpede que tenho lá em casa, eu continuo a preferir o homem ao cão como melhor amigo. Seja em tempo de desgraça, seja em tempo férias.

Eker Sommer