Antes que me atirem pedras os defensores de umas passas para a malta tirar o ar sisudo, devo fazer uma advertência: em matéria de drogas, legais ou ilegais, sou virgem. E mesmo assim arrisco fazer justiça àquela velha máxima que jura que a ignorância é atrevida. Feito este ponto prévio, permitam-me os Leitores que partilhe a angustia com que tenho encarado esta moda louca das drogas legais. E acreditem que não é de hoje, nem de ontem, nem do mês passado. Fiquei assustado com este fenómeno na primeira vez em que ouvir falar dessas coisas que se vendiam numa loja perto da rotunda do Infante, em pleno Funchal. Primeiro estranhei o conceito de drogas legais, que atiram com pessoas, de um dia para o outro, para o Trapiche. Depois, fiquei intrigado com a legalidade do negócio. Nos últimos meses, confesso, ando indignado com a impotência da sociedade perante este absurdo. Angustia-me verdadeiramente saber que jovens sem informação podem ter acesso àquelas coisas de forma tão ligeira como um menor tem acesso a uma cerveja de caneca no balcão de uma discoteca sem ética. Assusta-me pensar que um toxicodependente, que está a ser tratado e acompanhado para se libertar do vício, possa ser agarrado por estas substâncias. Incomoda-me profundamente saber que já morreram três pessoas por causa destas brincadeiras. Revolta-me ouvir falar de pessoas que tomam aquelas coisas com nomes fixes e acabam completamente fora de si, alucinadas, a ver coisas onde não há, a ter atitudes completamente despropositadas. Preocupam-me os números associados a este absurdo. As dezenas de internados, os casos de pessoas que estão a vegetar, o facto de gente com conhecimento na matéria falar de efeitos irreversíveis nos consumidores daquelas coisas. Entristece-me saber que a venda até já se faz nas ruas, com produtos adulterados e ainda por cima a preços camarada, como se se tratasse de uns amendoins ou de um cachorro quente, mesmo daqueles muito besuntados com mostarda e ketchup. Porque não é. E se eu, na minha ignorância atrevida, já tinha medo destas coisas, muito mais alarmado fico quando vejo o director do serviço de urgências do nosso hospital referir-se ao fenómeno como uma calamidade. Ou o director do serviço de toxicodependência a gritar que aquilo que vendem como fertilizante é uma droga. E di-lo com todas as letras e com uma frontalidade que não é comum numa terra onde até o poder tem medo de enfrentar outros poderes. E o facto de o grupo parlamentar do PSD mostrar-se preocupado ajuda a perceber melhor a dimensão do problema porque, sendo o partido do poder, a tendência tem sido minimizar qualquer tipo de problemas. Foi assim com a pobreza, com a pedofilia, com o desemprego e outros temas incómodos. Não é assim – e ainda bem – com esta coisa das drogas legais. Lembro-me de ter escrito, num destes espaços de opinião, que perante situações destas cabe ao poder político uma intervenção clara e sem contemplações. Se é uma droga e é legal, ilegalize-se, dizia eu. Pensava que era assim, simples. Afinal, descobri esta semana, que não é bem assim. Que o zelador representante da República, o mesmo que não vê tanta coisa estranha nesta terra, detectou ilegalidades na proposta da Assembleia regional e agiu em conformidade. E que aquela estrutura pesada do Tribunal Constitucional confirmou os erros jurídicos do diploma. Resultado: volta tudo à estaca zero. E eu que pensava que o poder político podia, e devia, ter autoridade para estancar esta onda de loucura... Já sei que alguns Leitores que fizeram o favor de chegar até aqui estão a abanar a cabeça. Que não é bem assim, que não é tão simples, que se mudarmos a lei os fabricantes destas coisas mudam a composição dos produtos, que uma passa ou um charro não fazem mal a ninguém, que o álcool também é perigoso, que o café vicia, que os medicamentos são outras formas de drogas, que os calmantes têm efeitos perversos, que ninguém é obrigado a consumir e mais e mais... acredito e percebo tudo isso. Só não percebo como se pode ficar indiferente perante estes novos fenómenos absurdos sem nada fazer. Fertilizantes, é como lhes chamam os comerciantes. Fertilizantes. Devem ter razão. O comércio, legal ou ilegal, destes produtos contribui certamente para fertilizar duas coisas: os números das suas contas bancárias e os internados no Trapiche. Talvez um dia sirva também para fertilizar a frágil consciência de quem vende estes fertilizantes como se fossem simples punhados de guano quando, na verdade, são pitadas de veneno.