Quando tive conhecimento da morte do Dr. Fernando Sales Caldeira, fiquei profundamente triste. O Dr. Sales Caldeira foi o profissional de saúde que me recebeu e me aceitou na sua equipa, quando vim viver para a Madeira. Já trabalhava há alguns anos, no Porto, em diversas áreas de intervenção, e estava habituada a equipas de grande qualidade técnica e a diretores empenhados e conscientes da importância da formação e supervisão continua. Sentia-me, por isso, uma profissional privilegiada. A mudança deixou-me expectante em relação ao meu futuro profissional, e às condições de trabalho que me esperavam. Contudo, desde a primeira entrevista com o Dr. Sales Caldeira, senti uma profunda empatia e um atenuar dos meus receios e angústias. A equipa que dirigia era, sem qualquer dúvida, o reflexo da sua postura enquanto psiquiatra e psicanalista. Uma equipa segura do trabalho que desenvolvia, fortemente motivada na atualização constante dos conhecimentos, com um olhar sobre a saúde e a doença mental, que ainda hoje partilho e reconheço como o mais adequado. Apesar de muitas críticas, sobre o seu estilo enquanto dirigente, a equipa que integrei, trabalhava, diariamente, no sentido de responder às necessidades da região, com um sentido de responsabilidade e profundo respeito pelas pessoas que nos procuravam. Enquanto psiquiatra e psicanalista, olhava a saúde mental de frente, sem medo de que as criticas pudessem retirar-lhe mérito ou estatuto profissional. Como diretor, centrava a sua atenção na supervisão atenta dos casos clínicos. Admirava os seus mestres e, como muito bem sabia fazer, conjugava o melhor de cada um, partilhando o conhecimento de uma forma aberta e cativante. Era crítico e tinha voz. Não cedia a chantagens, nem se regia por valores corporativos ou de poder. Na relação pessoal que com ele desenvolvi, sempre me senti respeitada. No momento em que seguimos percursos diferentes, apesar de algumas divergências no entendimento da realidade da saúde mental na região, era sempre um enorme prazer revê-lo e ouvir os seus conselhos e opiniões. Muitos dos passos que dei, no sentido de colaborar na qualidade dos serviços prestados, em nome da saúde mental, foram resultado da confiança e estima que sempre senti da sua parte. Várias vezes o citei e continuarei a fazê-lo. Para mim, foi acima de tudo, um mestre na arte de tratar a doença mental. Devo-lhe a minha integração na região, e a motivação para não desistir dos princípios em que sempre acreditei. Com ele partilhava a certeza de que não existem pessoas perfeitas, e que ser imperfeito é ser humano. A noção de imperfeição possibilita e estimula a mudança. Há duas semanas, tive conhecimento que o Dr. Sales Caldeira já não estava fisicamente connosco, mas para mim nunca morrerá. A imortalidade, baseia-se no facto de que nada morre enquanto houver memória da sua existência. Obrigado por existir em mim e por tudo o que me ensinou.

Manuela Parente