É fácil idolatrar ou denegrir. Mais fácil é quando não se tem uma visão de conjunto do que pode estar em causa e nos deixamos ir no espírito da carneirada. A título de exemplo, muitos pensam que nos Jogos Olímpicos (JO) só estão os melhores entres os melhores. Tal não corresponde à verdade. Há quotas por país ou zonas. Alguns dos melhores desportistas do mundo não podem participar porque a "vaga" já está ocupada. Por outro lado, nalgumas modalidades podem participam desportistas com performances modestas como forma de incentivar (será?) o desenvolvimento desportivo nesse país ou zona geográfica… O grau de dificuldade para participar no JO não é idêntico em todas as modalidades. Numas, devido, por exemplo, aos critérios de seleção e ao número máximo de participantes na competição, quase todos os que lá vão têm legítimas expetativas de serem medalhados ou obter diploma olímpico e noutras a grande maioria já fica satisfeita por lá estar e não almejam a nada mais que melhorar as suas marcas pessoais (ou nem isso) e ganhar um "joguinho". Desta forma facilmente se percebe que colocar todos os olímpicos no mesmo saco e querer avaliá-los exclusivamente pelo seu lugar na classificação geral, não é aceitável. Até porque, para que se possa avaliar o rendimento de algo, temos de saber não só o resultado final mas também o capital que foi investido. No caso particular dos JO, mas podendo generalizar-se a outras áreas e contextos, é necessário que no início dos processos, por exemplo, se esclareçam quais os objetivos, qual o investimento que irá ser feito (não apenas financeiro) e qual o retorno que se pretende obter. Ou seja, é preciso saber para que tudo isto serve. Infelizmente nem existe esse hábito nem exigimos que passe a existir. Pelo contrário, alguns políticos, professores, pais, jornalistas, etc., que durante o ano inteiro menosprezaram, por ação ou omissão, o valor educativo da Educação Física e do Desporto enquanto meio de transformação do Homem (levantando dificuldades de acesso à prática desportiva, não disponibilizando condições dignas de preparação, levantando problemas aos alunos desportistas que têm de se ausentar para participar em estágios e competições), estejam agora na primeira linha para aplaudir e idolatrar os "vencedores" e para apontar o dedo e ostracizar os que não tiveram sucesso. Prezo muito a liberdade de expressão, mas haja decência. Sejamos exigentes e avaliemos o rendimento, isto é, a relação entre o investimento feito e o que de lá retiramos.
Hélder Lopes, Professor universitário