Manuel Neves Saraiva Preparava-me para escrever sobre o meu 1º Aniversário como Caminhante da Vida Activa , referindo o percurso da Levada do Caldeirão Verde, quando as terras da Madeira foram invadidas pelo fogo. Olhando da minha janela para as bandas do Palheiro o espectáculo das chamas era tremendo – por um lado o que se podia chamar de “dantesco” tal era a sensação de opressão que nos fazia sentir ; por outro lado a imagem de um “belo horrível” como lhe chamou E.Kant que, obrigatoriamente, fascinava. Passados os dias, e com a calmaria a regressar, sem o “ruído” que este tipo de situações sempre gera, é, talvez, tempo para alguma reflexão. Desde que aderi ao projecto do DN em participar activamente nas caminhadas que o mesmo tem promovido pelas Levadas da Madeira fui-me apercebendo, e sobre isso fui dando conta em reflexões, que a beleza fantástica da “nossa” Ilha e da sua floresta Laurissilva era sistematicamente ameaçada por mil e uma pequenas/grandes situações. Elas eram as invasões de flora não indígena com destaque para as acácias, os pinheiros e a o “terrível” eucalipto ; elas eram a construção desenfreada de casas e casarões em sítios incríveis; elas eram o desleixo dos moradores nos matos que circundavam as suas residências e dos visitantes com pouco respeito pelo ambiente; elas eram as “negociatas” que deixaram mazelas nas encostas e nos acessos … A culpa não é, e não era, de ninguém – simplesmente porque era , e é, de todos ! De facto não basta apontar dedos, ontem ou hoje, como não basta afirmar que “eu bem disse que …” ou “eu alertei para …” ou , até, “eu propus que …”. Viver em democracia é, em primeiro lugar, aceitar a regra básica do jogo : quem alcança a maioria vence ! Tentar subverter isso é tentar subverter a regra básica, e essencial, do sistema. Como tal encher a boca de democracia – para o que quer que seja – e não querer aceitar aquela regra sempre que a mesma não nos favorece não é só demagogia, não é só jogar sujo, é, fundamentalmente, ser, simplesmente, anti-democrático ! Assim o sistema que nos governa, o poder que nos governa, foi resultado de um voto em democracia que resultou numa vitória. Aqui na Região, foi um voto que resultou numa vitória que chegou, por mais de uma vez, aos setenta por cento de expressão ! Porquê ? Por, certamente, mil e uma razões - desde a manipulação de uns, o arrivismo de outros, a inépcia, ainda, de outros mais – mas, em suma, porque a esmagadora maioria lhes deu democraticamente a vitória. Logo, queiramos ou não, a esmagadora maioria que assim se comportou é a responsável ! Deixemo-nos de “paninhos quentes” – se o “povo tem sempre razão” , se “o povo é quem decide” , então o povo tem que assacar, também, a responsabilidade e a culpa ! Resolvida a questão da “culpa” há que começar a “explorar” os outros lados da questão : a denúncia do abuso, da ilegitimidade, até da ilegalidade ; o combate ao compadrio, ao “porreirismo”, ao laxismo, à incompetência, até à corrupção ; a defesa dos direitos individuais e colectivos, da dignidade, do meio ambiente, do património colectivo, do … futuro. E o futuro, e aquelas defesas, e aqueles combates faz-se, em primeiro lugar, por se ser cívico, e, de seguida, pela educação : das pessoas, das instituições, da sociedade. Estou particularmente à vontade : não votei nunca em nenhuma maioria , nem da Madeira nem de Portugal. Mas votei e, ao aceitar o jogo da democracia, ou cumpro as suas regras ou sou hipócrita. Restar-me-ia, se não aceitasse a democracia, ou a marginalização ou o combate à própria democracia. O resto é pura ficção, ou, pior, pura alienação ! Podemos ficar a “berrar” se a culpa é de quem licenciou, ou autorizou, a construção disto ou daquilo ou de quem, estando-se nas malvas para os efeitos, construiu a casa , ou casarão, ou armazém, ou fábrica ou fabriqueta … Podemos ficar a “gritar aos quatro ventos” se a culpa é de quem não fiscalizou ou de quem deixou amontoar as ervas, o mato, a sujidade florestal, ou de quem fez queimadas para cultivar, ou para urbanizar, ou para … Podemos ficar a falar sozinhos remoendo de que a culpa é de quem não geriu correctamente ou de quem se aproveitou para o subsidiozinho na “cultura”, no “desporto”, na “comunicação social”, no “turismo”, na “formação”, na “reinserção” ; para o tachinho do primo, do sobrinho ou do enteado ; para o “jeitinho” na junta de freguesia, na Câmara, na escola, na universidade, nas finanças, eu sei lá onde ! E que triste figura ( será ?) não fazem os que aceitando, pactuando, aproveitando, vêem depois apresentar-se como paladinos de uma luta que NUNCA foi sua ! Li algures , recentemente, que existem 1,6 ratos por cada habitante das cidades – e isso dá-me para perceber porque são sempre mais os que primeiro abandonam os barcos, e a razão porque não gosto de ratos. Nesta hora de chorar a ( e pela) Madeira seria bom que cada de nós se consciencializasse das suas responsabilidades e dos seus comodismos ; que cada um de nós procurasse ser mais activo, diariamente, na defesa dos seus direitos mas também dos seus deveres. E que, dentro das suas possibilidades, procurasse ajudar-se a si próprio, aos outros, à comunidade e ao País ( e à Região) , sem o fadinho da esmola, e da ajudinha … J.F.Kennedy não é um (meu) ídolo, mas a frase que lhe é atribuída é um hino à cidadania e que eu adapto : em vez de perguntar o que (a sociedade) pode fazer por mim o que é que eu posso fazer por ela ? Fechando o círculo, desta tão só reflexão, e voltando ao princípio : que fantástica e soberba natureza nos é oferecida no caminho da Levada do Caldeirão Verde ! Espero que se mantenha intacta para os vindouros poderem, também e ainda, dela usufruir! O meu agradecimento ao DN pelo que fez por mim ao proporcionar-me mais Vida Activa como caminhante. Compete-me, agora, fazer o resto para contribuir para a minha comunidade.