Já passou uma semana, mas vale a pena recuperar a célebre frase do primeiro-ministro que tanta indisposição causou a algumas alas da nação. “Se algum dia tiver de perder umas eleições em Portugal para salvar o país, como se diz, que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal”. Pedro Passos Coelho arriscou o calão e não deixou de fitar o olhar nos desprevenidos deputados do PSD, forçados a digerir aquelas palavras empedradas, entre dois suspiros de saliva seca. O soco em gancho no estómago deixou a maioria com azia, com vontade de levantar da cadeira para ir apanhar ar, mas ali ficou perplexa, a ouvir o líder - do governo e do partido - a afirmar, em plena Assembleia da República, que ninguém foi eleito para ser reeleito. A forma foi pouco ortodoxa para transmitir a preversão em que está mergulhada a forma de fazer política em Portugal, gerou interpretações pouco abonatórias como a de Carlos Zorrinho, que considerou um ultraje aos eleitores. Mas, basta esquecer a luta partidária por breves segundos para discernir que os eleitos estão no poleiro para resolver os problemas do país, para assumir as ‘despesas’ da governação – os progressos e os desdouros – sem perder de vista os compromissos assumidos perante todos os portugueses. Passos Coelho teve o discurso de um verdadeiro estadista: Primeiro os resultados de Portugal e só depois os do seu governo.

Não deixa de ser rebuscado o termo “que se lixe” na política, o que diz muito sobre o seu nível. Na Madeira, nos últimos dias de Setembro de 2009, o politicamente incorrecto Alberto João Jardim, também aplicou o golpe em gancho. Mas o alvo era outro, o sentido o inverso e o palco mais parecido a um circo. O chefe do governo regional estava na pele do sempre confundível líder do PSD e recandidato a presidente do governo regional que é apoiante dos autarcas candidatos quando, num comício para as eleições autárquicas em Machico, recorreu ao calão para digerir os resultados das eleições legislativas nacionais que deram a vitória a José Sócrates. Jardim, de cabelos em pé, apontou bateriais aos abstencionistas: “O país que se lixe, Portugal que se lixe, mas se eles querem que Portugal se lixe, eu não quero que a Madeira o seja”. Passou um atestado de incompetência aos eleitores portugueses, que não souberam votar(?) e aos que optaram por ficar em casa no domingo.

Se há alguém que, em Portugal, está a “lixar-se” para quase tudo excepto para os resultados eleitorais é Alberto João Jardim. Nos palcos dos comícios, no Chão da Lagoa, tem a palavra a obcessão do poder. O nome Madeira é invocado em vão, vezes sem conta, mas no fundo para o PSD-M o que conta são os votos. O exibicionismo da governação está patente, não nos resultados alcançados, mas nos cartazes que mostram a soma das vitórias conquistadas pelo partido nas vezes em que se apresentou ao escrutíneo dos madeirenses. Em que democracia os governos se concentram a coleccionar vitórias eleitorais sucessivas? Esta subversão produz um efeito preverso, duro de roer, explicado no livro do economista Paulo Trigo Pereira - ‘Portugal: Dívida Pública e Défice Democrático’. Em suma, explica que esta doença crónica de que padecem as finanças públicas não é um problema conjuntural como nos fazem crer. É, antes, o resultado do mau funcionamento da democracia. Muito sinceramente, eu prefiro um governo estadista, formado por coligações e disposto a correr o risco de perder eleições, do que um desgoverno demagogo e populista que colecciona maiorias e ridiculariza tudo o resto. Em qual deles vive mais perto a utópica democracia?