A superstição pertence à essência do homem. Goethe (1749-1832) Folha de malus A 17 de maio de 2003, visitei uma casa lulik - onde se realizam cerimónias tradicionais -, em Laleia, terra dos pais de Xanana Gusmão. Era a terceira vez que ali tentava entrar, mas, só nesse dia tive autorização. O chefe, Tomás Viegas, de 86 anos, disse que me recebia, apenas, porque sonhou que os antigos chefes, seus antepassados, estavam à volta da casa, à minha espera. Perguntei, se esse era um sonho de sorte ou de azar. O chefe sorriu e respondeu que não era de azar. O sonho significava que os seus antepassados tinham confiança em mim. Desse modo, eu podia visitar a casa, à vontade. No final, o chefe ofereceu-me uma folha de malus - planta que é utilizada para diversos fins. Após benzida na casa lulik, quem a possuir fica protegido, desde que acredite nos seus efeitos mágicos. Prisão do avô do Mundo Em fevereiro de 2005, numa aldeia do distrito de Baucau, a polícia deteve um grupo que tinha ameaçado de morte várias pessoas. Segundo os queixosos, um matandóc (adivinho), conhecido como o "avó do Mundo", distribuiu folhas de malus. Depois, avisou que as pessoas iriam morrer, devido ao feitiço das folhas, se não fizessem o que esse grupo ordenasse. Esta situação causou alarme na aldeia. Alguns não ligaram, mas, muitos outros, pensaram que poderiam morrer, devido à mezinha feita pelo avô do Mundo. No tribunal, enquanto um advogado timorense explicava o que eram as folhas de malus, tirei do bolso a minha folha e mostrei-a, para verem de que folhas estavam a falar. A senhora juiz vira-se para mim, e avisou: - Então, o doutor tem uma folha dessas?! Não a coloque na minha mesa! - Respondi-lhe que fora um chefe que ma oferecera. E mais: que a minha folha dava sorte, porque não tinha mezinha de azar. Os timorenses, ao verem que eu tinha uma folha de malus, ficaram estupefactos e deram uma gargalhada geral, no tribunal. Os arguidos tinham sido detidos por causa das folhas de malus e, afinal, o Procurador da República, também tinha, consigo, uma dessas folhas! Não sei se a minha folha de malus deu sorte. Mas, tenho a certeza, que azar não deu. *) Procurador da República no Tribunal Administrativo e Fiscal de Loulé
João Luís Gonçalves *