O cenário de crise que se instalou na Europa, apenas veio colocar a nu dois problemas que Portugal enfrenta e que condicionam largamente o seu futuro. Tudo se resume a uma só palavra: divida. De um lado está a dívida soberana, que ultrapassa já o valor da riqueza produzida num ano em Portugal, (100,8 % do PIB no final de 2011). Do outro lado, mais discreta mas não menos relevante, surge a dívida externa, que tem aumentado com estrondo, mormente nos últimos anos (108% em do PIB, em termos líquidos, em 2010). Sobram, pois, preocupações legítimas sobre a forma como podemos ultrapassar estes obstáculos que nos impossibilitam de termos uma economia forte e competitiva. As contas públicas têm de forçosamente ser "endireitadas" e a taxa de cobertura das exportações pelas importações também terá que crescer, sob pena de continuarmos a comprometer o crescimento com o fardo incomportável dos juros (4,2% do PIB, pela dívida pública, em 2011). Todavia, são difusas as soluções apontadas para sair deste impasse, não isentas de intenções político-partidárias, ideologias, modelos económicos e interesses de investidores/credores. Capitalizando os efeitos perversos da austeridade, colocou-se sobranceiramente na discussão, uma "agenda do crescimento", que sem se perceber bem de que medidas se socorre, visa promover a conivência intima entre a austeridade e a expansão económica, o que parece até paradoxal. A meu ver a solução, terá de ser do foro interno, mas também à escala europeia, para que efetivamente os flagelos sociais não sejam negligenciados (curto prazo) e que o crescimento sustentado seja uma realidade (longo prazo).
Rafael Freitas - Colaborador da AAUMa