Do Rio +20, à parte a habitual animação e expressão de vontades, os resultados obtidos indiciam algumas mudanças. Não tanto a correcção de curso dos habituais protagonistas, países poderosos ou blocos geoestratégicos dominantes, rumo a um novo modelo de governação mais compatível com o discurso da sustentabilidade mas, pela evidente e real mudança decorrente das demonstrações concretas de que é possível caminhar para um mundo mais sustentável. É certo que os compromissos atingidos ficaram, formalmente, muito aquém do desejado mas não do esperado. O conceito de economia verde continua muito imberbe e difuso, pouco perceptível em termos de concretização. A mudança para uma mais efectiva estrutura global de governação ambiental através da alteração esperada no programa de Ambiente das Nações Unidas foi, uma vez mais, adiada, resultando, então, destes dois objectivos falhados, uma sensação de que se continua a falar muito e a fazer pouco. Importa também, avaliar os responsáveis pelas não decisões. Todos sabemos (e daí também não estranharmos os resultados) das divergências e tensões entre os blocos que lideram. E mesmo dentro dessas uniões, as dissonâncias como a oposição entre a União Europeia e os Estados Unidos. Mas, vendo bem, também é verdade que se houve algo em que o Rio + 20 foi concreto, foi a constatação de que o futuro não vai, nem pode, depender destas tradicionais e obsoletas nomenclaturas. Há espaço, e ficou demonstrado, para a inovação, ruptura, e evidência de acções positivas, concretas, que podem dispensar a bênção do G-8, G-20 e outros G's. Do Rio + 20 resultou que há um G-zero, no qual cabem todos os que sabem da necessidade de um novo compromisso e querem dele fazer parte. Empresas, governos, regiões, a comunidade científica e organizações de pessoas, deram provas concretas de acções que já estão no terreno, que funcionam e que são alternativas inteligentes, efectivas e de sucesso. E mais compromissos concretos foram assumidos. Só no sector da energia, mais de 50 países assumiram compromissos que, mesmo não estando na Declaração final, hão-de demonstrar que, fora do circuito também se pode ser efectivo. 50 países do novo G-zero, assumem proporcionar acesso universal à energia; duplicar a sua eficiência energética e o uso de energias renováveis. 50 países decidiram assumir a iniciativa de criação de um novo sistema de indicadores de sustentabilidade e, conjuntamente com o Banco Mundial e grandes companhias privadas, decidiram tomar medidas específicas e concretas de protecção do capital natural em África. Este G-zero, acaba por demonstrar o falhanço da governação global actual e a crise de liderança que impede a procura de novos caminhos. Mas também mostra que é possível mudar.

António Domingos Abreu