11. Foram 11 dias fora da Região. No mais completo segredo. Por razões de segurança. Quando deixar a sua já longa carreira política, se um dia a deixar, o presidente do Governo Regional pode experimentar o mundo das artes. Como comediante, terá sucesso garantido. Quase tanto sucesso quanto o que regista como aquele que mais goza com os madeirenses. Os patas rapadas, como chama aos que não são doutores, são certamente o seu principal meio de divertimento. Dou comigo a imaginar o presidente, algures na terra do Pai Natal, naquelas reuniões importantíssimas de que não sai nada de jeito, a pensar nos que pensam que o arreliam cá na aldeia. Posso estar a ser injusto, mas vejo-o a troçar de nós. De mim, de alguns dos Leitores deste e de outros artigos. A rir-se a bom rir das notícias do DIÁRIO que davam conta da sua viagem mistério. À gargalhada mesmo quando alguém lhe disse - se é que alguém lhe deu notícias da parvónia nestes 11 dias - das estratégias da Oposição, das divisões no seu PSD, da luta de delfins, do secretário que teve de ir à Assembleia. É claro que tudo isto parece mentira. Mas não é. Numa Região afogada em dívidas, com o desemprego galopante, com gente a cometer loucuras, com famílias em desespero, com empresas a cair como um castelo de cartas, com empresários desanimados, com a economia parada, com uma austeridade duas ou três vezes maior do que a do resto do País, sua excelência o presidente da terriola dá-se ao luxo de ir arejar a cabeça. 11 dias fora da Região. 11 dias sem querer saber disto para nada. 11 dias fora da balbúrdia em que nos meteu a todos. Não fora o lado trágico do caso, isto até teria piada. Se fosse argumento de uma telenovela, teria sucesso. Mas a verdade é que estamos entregues à nossa sorte. E nem se sabe se é melhor o presidente estar fora do que estar dentro a atrapalhar. O que se sabe é que é de todo inadmissível que o chefe do governo de uma Região à rasca se permita ir 'trabalhar' lá fora durante 11 dias sem nada dizer. Sem explicar ao que vai, que interesse tem a viagem, que comitiva o acompanha. Nada. Absolutamente nada. Pata rapada não merece saber o que anda a fazer o doutor. E ponto final. No meio desta embrulhada toda, de que me envergonho enquanto cidadão madeirense, sua excelência fez saber no último dia da viagem o que andou a fazer durante 11 dias. A informação da Presidência foi tão clara como uma noite de puro breu: não se percebeu nada. Apenas que o presidente esteve fora 11 dias em reuniões de comités para tratar de coisas que são delegadas, adiadas, esvaziadas. Coisas com nomes pomposos de que não sai nada de jeito. Filosofia, conceitos vagos, convívios e passeios. Numa inédita explicação mais pormenorizada à chegada à terra, o presidente disse ao que foi e porque demorou tanto. Pelo meio invocou razões de segurança para não divulgar as suas misteriosas viagens. Estragou tudo. Bem melhor faria se estivesse calado, como esteve durante 11 dias. Assim, o gozo ainda é maior. É como pisar os calos do outro e rir-se disso. Deve pensar sua excelência que aqui ainda são todos parolos, que comem tudo o que lhes dão, que engolem e nem mastigam. Talvez comece a estar enganado. O pata rapada já vai abrindo os olhos, já se arrisca a criticar, a abanar a cabeça, a discordar, mesmo que timidamente. E ousa começar a reivindicar um direito antigo, que estava lá para o sótão dos seus pensamentos: o direito à indignação. Não se trata aqui de manifestações de rua, de protestos com cartazes tão ridículos como ineficazes. Trata-se da dignidade das pessoas. De respeito. E neste 11 dias em que esteve fora, Jardim faltou ao respeito para com os madeirenses. Todos e cada um desses 11 dias. E quando chega a falar de segurança, goza ainda mais com os pacóvios. Não fora o lado trágico, isto até teria piada. Mas não tem. Nesta comédia, apenas se ri o actor principal. A plateia, embrutecida, sente que o texto não bate com a interpretação. Afinal, esta peça não tem mesmo piada nenhuma e os espectadores deveriam pedir o preço do bilhete de volta. Afinal, o direito à indignação ainda existe, mas só para quem tem dignidade. Afinal, cada vez menos acreditam no velho gordo da Lapónia ou da Parvónia. O Pai Natal não existe.