A Ministra da Justiça esteve esta semana num telejornal da noite para ser ouvida sobre várias alterações legislativas destinadas a operarem novas dinâmicas no sistema de justiça e que vão ter significativo impacto na vida dos seus destinatários. É o caso das alterações a serem introduzidas no sistema penal, mas é muito o caso das inovações a serem implementadas no mapa judiciário que vão conduzir a um encerramento relevante do numero de tribunais existentes, forçando a deslocações significativas dos utentes. Tentava a ministra explicar que em consequência da utilização de meios entretanto colocados ao serviço dos tribunais, caso do audiovisual, os danos ocasionados aos utentes em consequência da entrada em vigor das novas medidas poderão ser significativamente minorados, transformando-se até pontualmente em ganhos de operacionalidade. Para poder deixar a sua mensagem necessitava, contudo, de tempo para a explicar, e tempo é o que não abunda na dinâmica de um telejornal. Mau grado o facto de a matéria sobre a qual foi reclamada a presença da ministra para sobre ela tomar posição ser matéria de interesse público, condicionante, como tal, da vida dos portuguesas. No âmbito do mesmo telejornal, mas a encerrá-lo, estava anunciada ainda a presença de Paulo Pereira Cristóvão, ex-membro da Polícia Judiciária e ex-dirigente do Sporting Clube de Portugal. Pereira Cristóvão, que enquanto agente da Polícia Judiciária ganhou notoriedade pública com o "caso Joana", relativo ao desaparecimento de uma menor em que as suspeitas recaíam sobre a mãe e um familiar desta, mas cujo corpo nunca veio a aparecer não obstante as densas suspeitas que se avolumavam de ter sido assassinada pela mãe, veio, no decurso do referido processo, a ser indiciado por agressões praticadas sobre os arguidos, os quais, todavia, nunca chegaram a admitir a prática do crime de homicídio pelo qual viriam posteriormente a ser condenados. Desligado da PJ, Cristóvão viria mais tarde a integrar a presente Direcção do Sporting na qualidade de vice-presidente. Não tardaria muito, contudo, que sobre Cristóvão viessem a avolumar-se suspeitas da prática, por si ou por interposta pessoa, de vários ilícitos criminais, nomeadamente devassa da vida privada, peculato, branqueamento de capitais e denuncia caluniosa, em consequência do que, no âmbito do processo, lhe foi aplicada a medida de proibição de visitar qualquer das instalações do Clube. Por ora, conforme salientou repetidamente Cristóvão na edição do Telejornal em que foi entrevistado por Judite de Sousa, não existem contra ele mais do que indícios, que a investigação poderá vir a confirmar ou não. Mas a simples circunstância de esses indícios terem atingido o volume e a dimensão que atingiram é já em si mesmo comprometedora, tornando claro que Cristóvão foi um erro de 'casting' na formação desta Direcção do Sporting. O que questiona o critério de um operador de televisão que concede no seu espaço noticioso mais nobre que é o telejornal da noite, mais espaço a Cristóvão para defender-se das suspeitas que sobre ele se perfilam do que à ministra da Justiça para esclarecer questões que interessam à generalidade dos portugueses. Tudo com a particularidade de Cristóvão, arvorado em egrégio respeitador do segredo de Justiça, nada ter esclarecido. Mas estando aqui em questão critérios, sempre se dirá que do ponto de vista da defesa de Cristóvão se afigura muito questionável a bondade da decisão de ter aceite o repto que lhe foi lançado para estar presente num telejornal nacional e falar sobre as suspeitas que sobre si se avolumam de prática de factos ilícitos de natureza criminal. Na verdade, residindo a utilidade da presença de Cristóvão na possibilidade de esclarecer pontos nebulosos que se prendem com o facto de ter sido constituído arguido, a atitude por ele adoptada, de resto conforme com o espírito da lei, de se mostrar zeloso respeitador do segredo de justiça, sempre frustraria qualquer possibilidade de esclarecimento. Mas uma outra questão avulta: a postura de Cristóvão não contribui para deixar dele a melhor das imagens. E não podendo ele esclarecer factos que se encontram cobertos pelo segredo de justiça, a utilidade da sua presença, do ponto de vista do interesse da sua própria defesa, só poderia residir na boa imagem que ele de si pudesse deixar. Mas nesse domínio nem Cristóvão se mostrou capaz de ganhar pontos nem o seu perfil o recomendaria minimamente para uma operação de charme desse teor!

Carlos Sequeira