"Não há modo de mandar, ou ensinar mais forte, e suave, do que o exemplo: persuade sem retórica, impele sem violência, reduz sem porfia, convence sem debate, todas as dúvidas desata, e corta caladamente todas as desculpas. Pelo contrário, fazer uma coisa, e mandar, ou aconselhar outra, é querer endireitar a sombra da vara torcida." Manuel Bernardes, in "Luz e Calor". Parece uma frase retirada de um qualquer manual sobre liderança ou gestão, mas não, foi escrita pelo Padre Manuel Bernardes em 1696. Uma frase intemporal, na medida em que, efetivamente, mais importante do que aquilo que se diz é o que se faz. De que serve fazer a apologia do serviço público desinteressado quando o objetivo é outro? De que serve advogar os princípios da igualdade e livre concorrência quando as condições de acesso estão, à partida, viciadas? Daqui advém a importância do exemplo e da coerência como condição para a credibilidade. Chegados a este ponto, percebemos quais os valores fundamentais de cada pessoa e qual a consistência entre os pensamentos (conhecidos), palavras (proferidas) e ação. O tempo atual tem-se revelado profícuo em escritos, partilhas, discursos sobre a importância da liderança pelo exemplo. Fico a pensar, se será pela falta de exemplo que tanto se fala dele? Ou será pela quantidade de ações que não correspondem às palavras? As dificuldades do dia-a-dia, as minhas e também as dos outros, têm reduzido significativamente o meu nível de tolerância à oratória dos bons exemplos desprovidos de ação consentânea; sim, porque nem tudo o que é lícito é honesto, nem tudo o que é legal é moral. E sobre esta matéria acrescento… este mês de junho milhares de portugueses não irão receber subsídio de férias, dizem que é legal. A moral é simples, ficamos todos mais pobres para que alguns tenham ficado, ou fiquem, mais ricos. E é este o exemplo de que me vou lembrar, de cada vez que me cruzar com a sombra de uma vara torcida.
Natércia Xavier, Formadora