Li a frase que dá título a este artigo num documentário que vi uma noite destas, nem sei em que canal. Era um daqueles programas bons para adormecer, depois da revista de imprensa, e em alternativa às habituais séries de polícias e ladrões. Não sei porquê mas parei num programa estranho, muito 'à americana', daquele género de concretização de sonhos tipo "Querido, Mudei a Casa". Estava enganado. Afinal, ninguém mudou a casa. Mudaram as pessoas da casa. Basicamente o programa retratava a vida de um líder de uma empresa gigantesca que, presumo eu, a terá herdado do pai que morreu cedo e lhe tentou ensinar que "todas as pessoas são pessoas". O administrador confessava que nunca tinha entendido o verdadeiro alcance daquela frase. Num dia, quando se apercebeu que o sucesso da empresa não se devia só à sua visão empresarial decidiu algo estranho mas não inédito: meteu-se uma semana a trabalhar como empregado infiltrado em várias secções. Passou por mais um funcionário entre as centenas que trabalham naquela empresa. Esteve a arrumar o armazém, passou pelos administrativos e por outras áreas. Viu a empresa por dentro. Viu gente que se dedica, que faz muito para além do que lhe pedem ou é sua obrigação. Aprendeu, disse ele no fim, quando se apresentou numa reunião com todos os funcionários, que percebera finalmente o alcance da frase do pai: "Todas as pessoas são pessoas". Apesar do conteúdo cor-de-rosa a raiar a ficção, fiquei a pensar na frase. E lembrei-me que era bom que alguém fizesse ver ao senhor presidente do Governo Regional e ao senhor primeiro-ministro de Portugal que "todas as pessoas são pessoas". Era bom que o senhor ministro das Finanças percebesse que os cidadãos da Madeira não são exactamente cópias de quem os lidera. Que alguns, por escassos que sejam, pensam de forma diferente. Agem de forma diferente. São diferentes. E que não merecem ser castigados da forma que estão a ser. Ou seja, se Lisboa vê em Jardim um infractor a pôr na ordem, que o faça se tiver meios e provas para isso. Mas que castigue apenas o infractor e não aqueles que apontam infracções e nem mesmo aqueles cujo único erro terá sido o de permitirem a continuação do regabofe em que vivemos nos últimos anos. Percebe-se que Lisboa queira ajustar contas com um Governo Regional que se habituou a fazer da birra uma arma política. Que sempre fez, e faz, da chantagem, mesmo a mais ridícula, um argumento. Que sempre ganhou mesmo viciando regras, nem que fosse pelo cansaço. Que sempre fez pouco de quem lhe estendeu a mão. Lembro-me de quando os Açorianos cederam fundos para os Madeirenses terem o seu aeroporto, lembro-me de quando António Guterres pagou a dívida da Madeira, lembro-me da vista grossa de Durão Barroso e de Santana Lopes, lembro-me do finca-pé e depois da estranha resignação de José Sócrates, lembro-me do completo alheamento de Cavaco Silva, até hoje. Todos eles perderam com Jardim, é justo reconhecê-lo. Da mesma forma que é elementar perceber que agora todos estamos a perder com Jardim. Todos mesmo. Incluindo, ou sobretudo, os que ainda estão com o presidente e que lhe abanam a cabeça para não o enfrentarem. Esses também estão a ver a vida a andar para trás a uma velocidade estonteante. Enquanto isso, o presidente, alheado do que se passa fora dos muros da Quinta Vigia e no conforto dos seus dois ordenados, continua num esbracejar patético, de dedo em riste, a dizer que não cede. Ele não cede, mas obriga os madeirenses todos, incluindo os que nele votaram, a ceder em toda a linha: no brutal aumentos dos impostos, no desemprego, no aumento dos preços, na instabilidade social, na crise que não lhe chega porque ele não sabe o que é abrir a carteira e vê-la vazia. O presidente, como muito bem dizia há dias o 'dono' do Pingo Doce, não sabe o que é crise. Não faz a menor ideia quanto custa um quilo de arroz, uma caixa de leite, um pacote de massa, um litro de gasolina. Enquanto o líder regional brinca em serviço, Lisboa mantém-se firme. Certo ou errado, mesmo fazendo de todos os madeirenses simples vítimas colaterais, o Governo nacional faz gato sapato das birras do Governo Regional. Eles aqui ameaçam com os tribunais, com a saída da União Europeia, com a independência e outras parolices. Eles lá fazem o que de pior se pode fazer a quem se dá a ares de esperto: ignoram!. Pura e simplesmente ignoram. O Governo Regional grita, protesta, esperneia, salta e espuma pela boca. E eles, 'moita'. Apenas vão dizendo pachorrentamente: "sim, mas têm de cumprir as regras". E vão à sua vida. A questão aqui é esta: e nós? É que no meio desta guerra tonta há gente dentro. Atrevo-me a sugerir a Passos Coelho e a Jardim que façam como o empresário americano e que, mesmo ficticiamente, se ponham no lugar dos madeirenses, nem que seja por um dia, umas horas. Que façam parte do povo madeirense que vive uma real e cruel dupla insularidade. Talvez descubram que "todas as pessoas são pessoas" e que não merece pagar o justo pelo pecador.