Há dias dei com um amigo de longa data perdido em pensamentos. Semblante pesado, testa franzida, ar impotente… Tal parecia ser a gravidade da situação que não resisti a perguntar-lhe o porquê de tamanha concentração. Cabisbaixo, quase em monólogo interior, respondeu-me andar muito preocupado com a filha, uma menina de 10 anos, que há já alguns dias lhe pedia para não ir à escola. Ela que fora sempre um exemplo de assiduidade agora implorava para ficar em casa e prometia até fazer cópias e contas a dobrar só para não ter de pôr os pés na sala de aula. O pai primeiro estranhou, depois desdramatizou, por fim considerou o caso uma artimanha. Afinal, qual é a criança que de vez em quando não tenta a balda às aulas?... A situação, no entanto, piorou. Aquilo que no início era solicitação tímida, constrangida, deu lugar a lágrimas e pedidos desesperados que levaram à constatação de que havia, de facto, um problema. O pai quis saber mais, muito mais. E não sem grande esforço conseguiu arrancar a confissão - os colegas da filha estavam a fazer-lhe a vida negra. Insultavam-na, humilhavam-na e, como se não bastasse, prometiam-lhe pancada caso ela se atrevesse a contar à professora. O drama começara há pouco tempo e sem razão aparente. Tinham-na marcado simplesmente. Podia ter sido a Maria, o João, o António, a Rita... mas não, tinha sido ela a escolhida. Talvez por ter cabelo castanho, talvez por ser magra, talvez por gostar de chocolate… qualquer motivo serve no universo de palmo e meio para transformar em sobressalto a vida de uma menina feliz. Obviamente que o meu amigo foi à escola. A professora, na verdade, sabia da situação e já tinha, inclusive, identificado a vilã da história. Uma menina, por sinal, que todos os colegas seguem cegamente. Uns por medo, outros por mera bajulação, todos por quererem pertencer ao grupo fixe. A mãe já fora chamada ao barulho, mas desabafara não conseguir "controlar" a filha. Ninguém sabia o que fazer. Sei eu, respondi, convicta de que nestas coisas é preciso ir à montanha quando a montanha não vem a nós. Fala diretamente com a miúda, aconselhei. Uma abordagem direta, clara e firme foi, de facto, quanto bastou para "controlar" a situação, conforme soube dias depois. E enquanto isso dei comigo perdida em pensamentos sobre a fragilidade da fronteira que separa a maldade da inocência. Lembrei-me, curiosamente, do grupo de miúdos náufragos do romance de William Golding, O Senhor das Moscas, que, numa ilha deserta e sem a liderança de um adulto, cedeu à barbárie, instaurando a lei do mais forte numa lógica de exploração do medo dos mais fracos. Lembrei-me também dessa mãe que confessou a sua incapacidade de controlar a filha de 10 anos e dessa filha que veste a pele de líder e escolhe arbitrariamente a vítima para infernizar. E ontem, talvez por ser o hoje o Dia da Criança, lembrei-me também de que, se calhar, Rosseau não tinha razão ao afirmar que o homem é naturalmente bom e que é a sociedade que o corrompe. Atrevo-me até a discordar, reformulando a tese. O homem só será bom se a sociedade - leia-se também família - souber incutir-lhe a noção de limite e, por arrastamento, a de intransponibilidade de certos limites. O respeito pelo outro é um deles. Não consigo, por isso, deixar de me arrepiar quando vejo uma criança que instaura a confusão porque um adulto, seja mãe ou pai, seja professor, não consegue "controlá-la". Onde estamos?! Que me perdoem os teóricos das psicologias da educação e as mentes mais brandas, mas eu ainda sou da velha guarda. Acredito que, em casa, o "senhor das moscas" continua a ser o adulto, pai e/ou mãe. Mal de nós se assim não for, pois correremos o risco de transformar em tiranos os nossos meninos e, quando dermos por nós, estarão eles a celebrar o dia do adulto…

Eker Sommer