E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, Você?
O início do poema de Carlos Drumond de Andrade foi a primeira coisa que me veio à memória quando, esta semana, ficámos a saber da dívida oculta da Madeira. 1.113,3 milhões de euros de dívida contraída, não paga, nem relatada a quem de direito.
O poema de Drumond de Andrade fala de um José, mas para o caso até poderia ser João, Maria, Francisco. Todos e cada um de nós. Porque se é verdade que este crime cometido contra a Madeira e os madeirenses tem caras e nomes, não é menos verdade que a factura vai ser cobrada ao povo. É este quem vai pagar, pela medida grande, o desvario que tem sido a imagem de marca do apregoado desenvolvimento regional.
A questão que se coloca é precisamente esta: E agora? Agora que a festa acabou e é preciso pagar a conta, quem nos vai valer?
É verdade que existe obra feita, é verdade que a Madeira de hoje cresceu, modernizou-se. Mas há a outra face da moeda. As obras megalómanas, os investimentos sem retorno, a loucura desenfreada do betão e do resto, que, a determinada altura, serviu mais para suster o regime do que para alicerçar um futuro colectivo sustentado e sustentável.
Esta semana, à medida que as notícias e as reacções se sucediam em catadupa, confesso que senti um calafrio. Por mim, pelos que me são próximos, por todos... O que vem aí não será fácil. E o que vem aí é mais desemprego, mais precariedade, mais cortes, mais de tudo o que nos empobrece, mais de nada.
Não serão tempos fáceis os que se anunciam. Não haverá jantares e almoços grátis, porque na verdade nunca existiram. Foi tudo uma ilusão, um logro, um erro.
Só espero que quem nos trouxe até aqui, também esteja preparado para o 'monstro' que criou. Esteja preparado para enfrentar o povo a quem tudo foi dado gratuitamente e que, agora que a festa acabou, vai ter de devolver o que tinha e o que pensava ter como certo.
Não será fácil explicar que as regras agora são outras, que o mundo mudou, que já nada é garantido. Foram muitos anos de borlas, de democracia popular na sua face mais pura e negra. Amparou-se, protegeu-se, privilegiou-se. Não só o povo, mas toda uma máquina que funcionou alimentada a subsídios, benesses e obras.
Resta agora saber o que fazer com o muito que temos e com o tanto que nos falta. Resta saber o futuro. Resta perguntar: E agora, José?