1.Em 1993, a "Madeira nova" não conhecia a rede viária atual. As velhas estradas regionais cobriam a ilha de uma ponta à outra. Ir do Funchal à Ponta do Sol exigia muita paciência e estômago forte para aguentar o grande número de curvas, exercício capaz de deixar nauseados os menos aptos. Em plena campanha eleitoral para as autárquicas desloquei-me àquele concelho para cobrir mais uma ação do partido do poder. A receita para cativar o povo era a mesma de sempre. Inauguração oficial à tarde. Comício partidário à noite. É claro que a fronteira entre um e outro era inexistente. O fato da tarde era o mesmo do da noite. A fanfarra tomava conta dos pequenos sítios dos concelhos rurais, onde uma cerimónia desta natureza implicava doses generosas de carne no espeto, vinho seco e fogo de estalo. A população acorria em massa, com as suas melhores indumentárias para os cumprimentos da praxe. Tudo certo para um ambiente festivo de abertura do que quer que fosse: um caminho com 300 metros, um novo tanque de rega, um infantário, um novo restaurante ou um viaduto. O importante era cortar a fita. O que mais me incomodou nesse tempo e não apenas na Ponta do Sol eram as convicções e as certezas daquelas gentes da Madeira que se estava a vestir de betão, da região moderna de acessos viários rápidos e de bons equipamentos hoteleiros. Muitos deles me confidenciavam, sem sussurros, que o voto era no «PPD», no partido que lhes garantia os ordenados e as reformas. Porque assim rezava a missa cantada pelo senhor fulano de tal, dono da mercearia/tasca local, delegado de sítio do partido do poder, e que lhes fazia o favor de trocar os cheques da Segurança Social. A "Madeira nova" que se erguia continuava a permitir este tipo de certezas, quase absolutas. O esclarecimento das mentalidades não era prioritário, porque, nas urnas, as vitórias eleitorais sucediam-se, absolutas e incontestáveis. 2. A imagem da Madeira nos últimos tempos é francamente má por estas bandas. É vista como uma região que gastou e gasta acima das suas possibilidades. Pior, que tem esbanjado dinheiro do erário público em obras controversas e desnecessárias. O episódio conhecido esta sexta-feira da alegada dívida oculta é mais um exemplo de péssima publicidade, que já extravasou fronteiras e motivou as mais veementes criticas nos jornais de todo o mundo. De facto, a "Madeira nova" é uma terra dispendiosa e mal gerida aos olhos dos que por cá leem notícias que anunciam buracos financeiros sem fim. São 5, 7 ou 8 mil milhões de euros? A verdade dos números tem de ser conhecida, por mais que isso custe eleitoralmente ao PSD/M, que continua a adotar uma estratégia de comunicação impulsiva e nada esclarecedora. A obra feita não justifica esta derrapagem monumental nas frágeis finanças públicas e já nada se resolve na base da estalada verbal. Esse tempo passou. Urge termos a radiografia completa dos dinheiros que foram aplicados nos projetos da "Madeira nova". Antes de outubro, sim. Ou (alguns) eleitores vão continuar a acreditar no homem que lhes troca o chequezinho da segurança social? PS - Registo de interesses: não voto na Região Autónoma da Madeira.
Roberto Ferreira