Os actos de vandalismo pilhagem e destruição ocorridos em Inglaterra são criminosos. Não podem ser confundidos com o legítimo direito democrático à manifestação de justa indignação em protesto contra decisões políticas, ou em demanda de reformas sociais, como presenciamos em países árabes. Foram, são acções de violência gratuita, que não pode sobrepor-se ou substituir o diálogo, a forma por excelência de comportamento e relacionamento humano digno. Pretender justificá-los ou defendê-los como reacção natural a medidas políticas injustas, apenas servirá para reforçar populismos, autoritarismos, radicalismos e sectarismos em nada abonatórios de um clima de serenidade necessário à construção de sãs convivências, nas nossas sociedades multiculturais e complexas. No rescaldo inglês, há perdas de vidas e modestos meios de subsistência de milhares de cidadãos apanhados na corrente destes motins. Os chamados danos colaterais, vítimas fortuitas de todos os conflitos. Porque este é mais um. Diferente dos combates militares, mas subtil, fluido e latente nas dores anónimas das relações sociais desequilibradas, e na crescente desigualdade e complexidade da nossa sociedade moderna, e que de quando em vez rebenta à superfície das grandes urbes, deixando rastos de destruição. Há sem dúvida que punir quem deliberada ou inconscientemente destruiu e saqueou propriedade pública e privada. Porque é este tipo de acções que depois irá legitimar eventuais medidas restritivas à liberdade, retrocessos em conquistas civilizacionais em direitos humanos, pondo em risco a própria democracia. Há uns anos em França, arredores de Paris, tivemos cenários e episódios semelhantes, ocorridos também em bairros problemáticos, guetos sociais, lugares comuns de pobreza, desintegração cultural e social, desemprego, exclusão e marginalidade, o caldo de cultura de muitos subúrbios das grandes metrópoles, ideal ao fomento da alienação e do crime. Configuram um multiculturalismo mal resolvido na nossa cosmopolita Europa, feito de encontros e desencontros, talvez mais de situações de intolerância, de défice de cidadania, dominação e submissão e menos de partilha e responsabilização, nessa luta pela sobrevivência, que leva tantos seres humanos à legítima procura de melhores condições de vida, nos fortuitos El-Dorados da História. Relembre-se o trágico morticínio de Oslo… Os homens-bomba, os kamikaze não são só figuras de outras latitudes e épocas; fabricam-se ao nosso lado, hoje, alimentando-se de desesperança, raiva, preconceito e ódio ao diferente, e põem em risco a segurança e a prosperidade dos ricos deste mundo. Muitos dos amotinados ingleses eram jovens adolescentes e crianças, para quem destruir e pilhar parecia ser apenas mais uma diversão a partilhar na internet. Repudiando as suas acções, uma reflexão se coloca porém a todos os responsáveis políticos, familiares e institucionais. Como tem sido a educação destes jovens? Que valores lhes têm sido transmitidos nesta era da tecnologia e do consumo, que agendas os comandam, que ideais os inspiram? Em que colos foram embalados? É já comum referir a crise de autoridade na família, na escola, nas instituições do Estado, que enferma as sociedades actuais. Talvez por uma ambígua noção de liberdade, tolerância, e bem-estar, por demissão, indiferença e irresponsabilidade. De todos. Preocupamo-nos em dar às crianças e jovens muito do que o dinheiro pode comprar e menos do que não tem preço mas vale imenso em formação do carácter e civilidade: afecto genuíno, princípios, normas, valores, a riqueza incalculável da educação, as balizas e os padrões necessários à construção de personalidades equilibradas, sentido de pertença identitária e cidadã. O exercício da autoridade é isto. A sua ausência pode originar a alienação que tende a redundar em atitudes que extravasam a natural irreverência afirmativa juvenil e se convertem em agressividade, para além da ordem natural das coisas. Os motins de Inglaterra, como os anteriores em França servirão sempre para legitimar a medida simplista dos Cameron e Paulo Portas cá de casa, de endurecer a responsabilização criminal de jovens e adolescentes, no mais puro senso comum. Na hora da indiscutível e necessária responsabilização e punição dos prevaricadores, a questão é: criminalizar, será por si só, a solução? Será porventura a mais fácil. Porque fácil mesmo é apontar o dedo, eleger o conveniente bode expiatório e claro, lavar as mãos como Pôncio Pilatos! E no entanto mais do que nunca impõe-se analisar racionalmente todos os momentos destes graves acontecimentos, porque há uma mensagem subjacente. Saibamos entendê-la! Até porque quando se aponta um dedo, restam três que se viram para nós!

Júlia Caré