Hoje é dia dos 700 mil desempregados. Da geração à rasca, da geração rasca, da geração enrascada. Dos precários e dos pensionistas, cujo dinheiro que auferem não chega para medicamentos e alimentação e têm de fazer opções no final do mês. É dia das famílias que estão em incumprimento nos seus compromissos financeiros e, por isso, em risco de perderem património. É dia do país que tem duas em cada cinco crianças pobres.

É também dia dos mais de metade dos eleitores abstencionistas que no fim-de-semana passado preferiram não ter a maçada de escolher e também de todos aqueles jovens que não sabem que efeméride se assinala hoje. São metade (entre os 18 e 24 anos) a quem a explicação “é feriado” basta. Tudo isto é Portugal que hoje se celebra. São as empresas públicas sorvedouras do dinheiro que é de todos, as parecerias públicos-privadas tão lesivas para o Estado, que somos todos nós, o memorando assinado com a ‘troika’, como último reduto, o resgate financeiro de 78 mil milhões e os sacrifícios e tempos difíceis (mais difíceis) que aí vêm.

E para não ganhar o rótulo de ‘velha do Restelo’, expressão que não podia ser mais apropriada no Dia de Camões, lembro que também é dia de todas aquelas entidades e pessoas que nos fazem ter orgulho no nosso país. Algumas delas vão hoje ser condecoradas pelo Presidente da República, como a decoradora madeirense Nini Andrade.

O Presidente da República dizia ontem que é preciso que nos conheçamos e que não vivamos de ilusões. E por isso, usando uma expressão que os partidos tanto gostam em campanha eleitoral, este é um dos muitos retratos do país real, que hoje se celebra.

Muitos diriam que não é tempo de comemorações. Mas hoje é dia daquele povo, que não perde uma boa festa, sempre que pode e não pode. E por isso, quando Cavaco Silva começar a falar aos portugueses, a maioria não estará a ouvi-lo, porque estará, por certo, a caminho da praia, ou do destino para as mini-férias. E não se pode censurá-los, porque a bem dizer estão a contribuir para a economia, da Madeira, do Algarve, dos Açores e de outras zona do país. E também porque sejamos sinceros, ninguém sabe como será o futuro.

Diz-se que será negro e escuro, como as nuvens descritas pelo autor dos Lusíadas, quando os portugueses chegaram ao Cabo.

"Tão temerosa vinha e carregada, Que pôs nos corações um grande medo; Bramindo o negro mar, de longe brada Como se desse em vão nalgum rochedo”.

(...) Na altura, as Tormentas tornaram-se Esperança. E agora, Portugal?