Caro leitor, se foi suficientemente curioso para começar a ler este texto, por estar intrigado com o inusitado título, permita-me desde já elucidá-lo: aquela estranha palavra não é uma vítima do novo Acordo Ortográfico, mas sim uma palavra russa, que infelizmente em português se escreve "Troika" (com um "k" até fica mal, melhor seria "Tróica", mas isso agora não interessa). Bem sei, já está a deitar a Troika pelos olhos, já não suporta ouvir este malfadado nome repetido à exaustão em tudo o que é Rádio e Televisão, invariavelmente associado a contenção, redução e austeridade. Mas por acaso sabe o que significa? Qual a sua origem? Pois, se calhar não…Se pelo contrário teve a preocupação de pesquisar um pouco, num dicionário ou na "Wikipédia", ou se simplesmente já sabia o que raio é uma Troika, porque é um leitor culto e informado, nesse caso grato pela atenção dispensada, pode passar às Cartas de Leitor. Mas então avancemos, que se faz tarde… Troika em russo significa um carro conduzido por três cavalos, ou um trenó puxado por cavalos. Em política, a palavra troika designa um comité de três membros que se reúnem num esforço conjunto para a gestão de uma entidade ou para completar uma missão. No fundo, é como se tivessem atrelado três cavalgaduras para puxar por um país inteiro de burros! No passado, as Troikas mais famosas começaram por se chamar triunviratos, nos tempos do Império Romano. Mais tenebrosas foram as troikas soviéticas, nas quais havia sempre um artista que eliminava os outros dois elementos e ficava sozinho a mandar. No caso vertente não se eliminaram mutuamente, limitando-se a impor regras draconianas, posteriormente reduzidas a escrito no já famoso "Memorando da Dita". Este documento foi assinado pelos três partidos do arco governativo (PS, PSD e CDS), que passaram a ser apodados pela esquerda (CDU e BE) como os "Partidos da Troika". Que original! Os ilustres cavalheiros que vieram resgatar Portugal da bancarrota são: o alemão Jürgen Kröger, um médio defensivo possante, exímio a destruir jogo. Foi contratado pela Comissão Europeia após ter efectuado temporadas brilhantes ao serviço do FMI e do BCE; Poul Thomsen, um veterano avançado dinamarquês especialista em resgates financeiros. Tem no seu extenso currículo passagens pela Grécia e pela Islândia (com os resultados que se conhecem), e representa o emblema do FMI desde 1982; finalmente, temos outro teutão, Rasmus Rüffer, um longilíneo e calvo ponta-de-lança, que representa o Banco Central Europeu há dez anos. Este analista de desequilíbrios macroeconómicos é o único membro desta equipa que tem realmente "cara de troika". Nesta altura, perguntar-se-á o leitor qual o interesse em insistir tanto na "Troika", quando os senhores que a constituem já estão no terreno desde finais de Abril? Pois é, faz sentido pela importância do dia que se celebra hoje. O 10 de Junho, dia de exaltação patriótica e orgulho nacional, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Que significado tem o 10 de Junho na actual conjuntura, em que o país se encontra refém da boa vontade (e dos Euros) das principais instituições financeiras internacionais? Depois destes vergonhosos anos de "delírio socrático", espera-nos um longo calvário, cujas consequências são ainda uma incógnita. Até ver, qual Passos Coelho, qual Portas, quem manda nos destinos de Portugal é a Troika. Soberania nacional é um conceito que provavelmente devemos esquecer desde já, pelo que mais vale adaptarmos o país à realidade, a começar por este dia feriado, pelo menos enquanto não for extinto por decreto. Passemos então a festejar o 10 de Junho como o Dia da Troika, da Sra. Merkel e dos Desempregados Portugueses. Mas, por obséquio, sem banda militar e com a bandeira a meia haste. Dr. Cavaco, pode continuar a distribuir medalhinhas…e não se esqueça do Engenheiro "Troika-Tintas".
Raul Ribeiro