Portugal e os Portugueses serão afectados a partir de amanhã por uma greve de quatro dias convocada pelos pilotos da TAP que reivindicam basicamente o “direito” que, dizem, lhes assistir de quererem ser sócios da companhia aérea, numa percentagem de 20 por cento, num próximo cenário de privatização da empresa. Tenho a experiência de viver em democracia que todos os cidadãos portugueses hoje vivos e lúcidos têm. Não me recordo de uma tal justificação para uma greve. Que estivessem a lutar por melhores condições de trabalho, por um (ainda) melhor salário, por regalias que eventualmente lhes tivesse retirado, por uma atitude menos coerente ou ilegal da empresa para com a classe ou um número qualquer de profissionais do sector… tudo bem, acho que aceitaria com alguma resignação a greve. Embora reconheça que há sectores estratégicos em que o direito à greve plena é muito complicado e, por vezes, difícil de aceitar, atendendo aos prejuízos que causam em classes sociais que poderão ser mais penalizadas, como é o caso dos transportes públicos e o abastecimento de produtos essenciais ou cuidados de saúde, não mostraria tanta indignação por mais esta paralisação dos pilotos da TAP que ao longo dos anos, têm conseguido na companhia um pacote salarial muito interessante, é verdade, mas resultado de algumas lutas que têm delapidado o património da empresa… hoje reduzido à marca, às suas rotas e ao seu pessoal que, concordemos ou não com meios que utilizam para impor a sua força, são qualificados e atingem níveis de prestígio internacional bastante destacado na sua classe. Esta greve mostra uma vez mais o egoísmo com que lutam certas classe profissionais mais abastadas e melhor pagas, mesmo em tempo que se pedem sacrifícios ao país e à Europa, em que famílias inteiras passam dificuldades e, inclusive, fome, em que o perigo de encerramento, de insolvência e de falência de centenas ou milhares de empresas não é uma ameaça longínqua, mas sim uma previsão próxima. Os senhores pilotos da TAP vão obrigar a companhia aérea, que lhe dá valor, trabalho e um salário chorudo à perda de mais alguns milhões de euros. E irão obrigar a Madeira a mais uma enrascadela, porque está a perder clientes nos seus hotéis, numa altura crucial, além das marcas que oito dias de greve deixarão, não obstante a obrigatoriedade que não lhes agradou, de serem feitos quatro voos por dia, três de Lisboa e um do Porto, impostos pelas obrigações de serviços mínimos garantidos durante o período de greve. Não duvidamos que os pilotos de linha aérea sabem a força que têm neste País, assim como os médicos e enfermeiros, por exemplo. E sabem mostrá-la e esgrimi-la como trunfo em ocasiões de grande sensibilidade, na esperança (digo mesmo na certeza) de que, inevitavelmente, o Governo da República, que é o dono da TAP, “de calças na mão”, não tem outra alternativa se não aceitar ou ceder o mais próximo possível dos intentos ou ambições dos sindicalistas, mesmo que não aceites por quem antes analisou, negociou e repudiou as propostas por demonstrarem uma inaceitável incongruência. É contra esta arrogância que me indigno. Pela estratégia de pressão para ganhar uma posição de ascendente sobre todos quantos trabalham na companhia. Uma questão de castas que não aceito, embora tenha um respeito e admiração grandes por quem desempenha o seu trabalho e consegue se destacar pela sua proficiência técnica e qualidade profissional. Será que numa obra de construção civil o engenheiro é o único importante? Por vezes acontece, mas penso que isso hoje acontece mais amiúde nos países de regimes menos abertos, onde a maioria dos Portugueses não gostaria de viver.