Ultimamente temos assistido, quase impávidos e serenos, pois brigamos mais no nosso sofá do que nas ruas, a um dos maiores ataques à democracia após a sua implementação. Na Europa dos direitos sociais e das conquistas avançadas, que tem no seu seio 27 Países, são dois os que mandam e os outros limitam-se a cumprir as ordens. É quase chocante ver as "cimeiras", entre a Sra. Merkle e o Sr. Sarkozi, a ditarem as ordens, tendo mesmo a lata de reunir poucos dias antes, das verdadeiras cimeiras dos 27, com toda a cobertura da comunicação social, a anunciarem o que vão ser as decisões principais preparadas por eles. Que se saiba, estas pessoas não foram eleitas nem mandatadas por ninguém para fazer este papel, mas fazem-no porque se sentem os donos da Europa e acham que eles é que mandam e que os outros têm de obedecer. Sentem-se os donos, porque se sentem ricos e poderosos e consideram que os outros, são pobres e fracos e por isso só têm que obedecer. O nosso País porta-se como um "anjinho" agachado, já tendo decidido a obediência cega a esta dupla antidemocrática, mas continua a fingir, reunindo com todos os partidos, mesmo que as suas opiniões sejam para deitar no caixote do lixo, mesmo antes de entrar no avião. Mas a falta de democracia não fica por aqui. Se a dupla considera que na Grécia o Governo eleito não está a cumprir as suas regras, toca trocar por um de tecnocratas não eleitos, para impor ainda mais austeridade ao povo, que empobrece cada vez mais, estando a chegar ao limite das suas forças. O povo não votou mas foi-lhe imposto mais um Governo que os ataca ainda mais. Onde fica a democracia representativa dos povos a mandarem nos destinos dos seus Países? O mesmo está a acontecer em Itália, onde mais um Governo cai sem eleições e mais tecnocratas vão para o poder impor austeridade. E mesmo que a Ministra do Trabalho Italiano verta lágrimas em público, o que estão a fazer é ditar no lixo conquistas sociais importantes que vão mexer com o povo Italiano assim como acontece na Grécia. E em Portugal onde se inclui esta "santa terrinha" o povo votou, elegeu governos que juraram que iam ser melhores, respeitar os direitos fundamentais das pessoas, cortar nas despesas não prioritárias para não mexer nos direitos sociais, que não iam aumentar impostos, que iam resolver os problemas da pobreza e do desemprego, que os sacrifícios iam ser sobre os que mais tinham, blá, blá, blá… deitaram estas promessas no caixote do lixo, fazendo tábua rasa da democracia, e começaram a governar com grandes "presentes" iniciando com a taxa extraordinária sobre o subsídio de Natal dos trabalhadores e pensionistas. Já decidiram alterar o conceito de pobre e de rico, sem mesmo alterar a lei. Quem ganha uma pensão acima de 270 euros é rico, por isso fica com ela congelada. Quem ganha acima de 485 euros começa a sofrer cortes porque já vive muito bem. Quem ganha acima dos mil euros é rico e então tem de pagar toda a crise do País. Não interessa se tem encargos familiares, se tem muitas despesas com a saúde, se pode ficar sem a casa por não ter rendimentos para a pagar. Isso não interessa nada porque "todos" temos que ser pobres e nunca devíamos ter sonhado em viver com melhores condições de vida e sermos donos de alguma coisa. Isso é um privilégio para os verdadeiros ricos, por isso mesmo não podemos mexer nos seus "direitos". Temos que voltar a ser um País cujo destino é haver pobres e ricos e acabar com a classe média, pois esta nunca devia ter existido. Foi um sonho de Abril que deve ser destruído, assim como outros já o foram. E quando digo que quem votou nesta gente e até diminuiu a representação dos partidos que se opõem a este caminho, ou então pura e simplesmente os afastaram do parlamento, é ingrato e acrescento ignorante, pois vota contra os seus próprios interesses, cai o "Carmo e a Trindade" e dizem que estou a ser politicamente incorrecta pois o "povo é sábio" e sabe sempre o que faz. Se sabedoria é isto em que estamos a viver, eu quero ser "burra" até morrer. Não foi para trabalhar mais horas por semana, ficar sem o subsídio de Natal e de férias, com menos ordenados, com menores reformas, com mais pessoas desempregadas, com mais pobreza, com menos educação, com menos acesso à saúde, com um custo de viva agravado e com mais aumentos de impostos e com menos democracia que lutámos tanto após o 25 de Abril. Tudo está em causa, por isso a luta contra tudo isto não pode parar.
Guida Vieira