Guardei silêncio. Não há palavra nem lugar onde caiba alegria tamanha. Do fundo (de onde não sei) em mim ecoou a primeira memória da praça, a primeira memória da ilha. Uma outra escala, a encosta, tamanho mar e temor. Seguia linhas desenhadas no papel do mapa, pela onda litoral: um fio ténue a delinear horizonte e mar, outro a alinhavar terra e água. Por estradas estreitas sobre o abismo e entre canais de terra a respirar por dentro da montanha, finalmente encontrei a inscrição prometida. Muito devagar na tarde ainda quente, descobri, no silêncio das casas encostadas uma a uma, o nome das ruas - "dos Barqueiros", "das Gaivotas" e "da Fé". Concordam com o real (senti): os barcos quietos sobre a pedra, pássaros soltos ao ar, a Fé que tem quem da terra se faz mar. Um mural de cores vivas recria a alegria. Pintado à mão, enorme, ao alto e a todo o largo na fachada lateral de uma casa, à escala de um cartaz de cinema, como uma legenda da vila (e da vida): "Madalena do Mar" (eras tu, Madalena, menina). Andei um pedacinho mais, encontrei uma mesa de pedra e bancos corridos quase escondidos numa sombra fresca, a um canto de uma pequena praça. Por entre o olhar quase distraído, entrevi, no canto oposto, uma placa alta, letras que via mas não conseguia ler. Quase quieta, mais perto, muito perto: "Praça do Universo". Do "Universo"? (A quem se devolve o que é "do Universo"?) Perguntei em redor: "porquê do Universo?". Não sabem responder-me os pescadores, abandonados ao jogo da tarde na sombra das árvores; aquela praça é sua, o nome foram outros que lhe deram. Na venda, tento uma outra vez uma resposta; que não sabe, lamenta o dono (a venda é o centro da praça e o carteiro encontra-os sempre ali. E basta.). Nem tinham reparado, responderam. Eu sorri. Tinha entretanto o sol deixado um tom de fogo nas paredes da praça, nasciam sombras, somadas à luz da noite que entretanto chegava. Pontos luminosos iam desenhando o céu. Soube, entre fogos-fátuos e a brisa nocturna, o pouco que entendia "do Universo". Uma só linha, em movimento, um verso único, galáxias distantes (isto tinha eu lido nos livros da escola). Nesta Praça, o Universo era uma soma de sons (das ondas), de tons (da luz das casas, da luz dos barcos no mar), de linhas (a unir, ponto por ponto, cada estrela tardia). Seis homens perdidos em pleno mar; seis homens encontrados em pleno mar, contam-nos palavras (demasiado) demoradas de três dias suspensos no silêncio de um tempo sem espera. O primeiro gesto de um destes homens ao regressar a casa é beijar a terra. O espanto. Neste gesto de um homem senti compreender como se devolve o que é "do Universo". Este homem sabe como se é do Universo. Nem deuses nem náufragos: homens do mar regressados a terra. A calma da casa. A alegria da terra. A leveza do mar. Do universo. Numa praça como na vida.

Diana Pimentel - Docente universitária