Maria Susana Mexia A Grã-Bretanha, país católico apostólico romano durante muitos séculos, em 1534 por um capricho amoroso do Rei Henrique VIII, vê a sua religião substituída pelo anglicanismo, a qual passa a ser imposta como religião oficial do Estado e liderada pelo próprio monarca. Uma onda de perseguições foi então desencadeada naquela época e todos os que não pactuaram com a "loucura do monarca" tiveram o mesmo fim: a execução, tal como Ana Bolena e Thomas Moro, entre tantos outros. Nos séculos que se seguiram foi "declarada guerra" a todos os cristãos e ainda hoje, qualquer outra religião tem mais regalias no Reino Unido do que a representada pelo sucessor de Pedro em Roma. Todavia, ela conta com seis milhões de habitantes, cerca de 10% da população, todos praticantes e mais fervorosos na sua fé do que os anglicanos. Neste contexto, nunca um Papa tinha recebido um convite oficial para visitar as ilhas, (João Paulo II esteve lá, em 1982,mas em visita meramente pastoral), pelo que a iniciativa da Rainha Isabel II em convidar Bento XVI a visitá-la, se apresenta como algo enigmático, preocupante ou mesmo desafiador. Com carácter mais amplo o Papa foi agora recebido por Sua Majestade, teve a possibilidade de proferir discursos oficiais e dirigidos a toda a nação. Como é seu hábito, teve encontros com o mundo da política, da cultura, da educação e da sociedade civil. Em clima exterior permanentemente hostil, onde ateus, homossexuais, defensores do aborto, do uso do preservativo e da ordenação de mulheres, em jeito de "talibãs britânicos", tentaram minimizar o valor e o relevo desta visita que, para além de compromissos políticos como chefe de estado, Bento XVI partilha com a Rainha de Inglaterra: o ideal ecuménico de paz, compreensão e tolerância entre todos os povos e religiões. A multifacetada e fragmentada Grã-Bretanha luta no seu seio com lobbys poderosos a todos os níveis, que em permanente atitude histérico-destrutiva declaram guerra a todos os que não partilham do seu relativismo niilista, dilacerando a ancestral tradição dum país com uma longa história de relevo acentuado, que se espelha no mundo inteiro. Não obstante estes e outros contratempos, a visita de Bento XVI foi considerada por todos um êxito que excedeu todas as expectativas. Acolhido por cerca de 400 milhões de pessoas e escutado por 60 milhões de cidadãos, este Papa audaz, surpreendeu e encantou em terras de Sua Majestade, de Shakespeare, de Newton, de Chesterton e de Churchill, entre tantos outros valores que ali se levantaram para engrandecer e aumentar o ideal do bem, da harmonia e da comunhão entre todos, para além da sua religião, raça, estatuto político ou diferentes ideais.