Francisco Leite Monteiro O lançamento oficial, no Funchal, de 'O bazar alemão', o novo romance de Helena Marques, minha contemporânea, embora mais jovem do que eu, foi sem dúvida um evento bem participado, a que tive o privilégio de também estar presente e foi notícia no Diário da passada sexta-feira. Tal como sucedeu com outros livros de Helena Marques, também este, que já o lera há cerca de um mês, me despertou um enorme interesse, com a particularidade de fazer, inclusivamente, mexer com as minhas meninges, levando a rebuscar na memória muitos dos caracteres e personagens que intervêm no romance, bem como dos lugares onde decorre toda a acção. Embora recorrendo à ficção, por razões que se percebem, lembro-me bem do então consul e de outros alemães aqui residentes, bem como da loja da Rua João Tavira, a "Exposição Alemã" e do "Café Klein", nas Cruzes. Mas de certos episódios que vivi e guardo na memória, um deles foi o início da guerra na sequência da invasão da Polónia a mando de Hitler, em 1 de Setembro de 1939, a que responderam a Inglaterra e a França, nas 48 horas que se seguiram. Estava eu no Monte, em vilegiatura, como se dizia, em uma casa pertença de meus familiares, ao sítio da Corujeira e recordo a ansiedade de meu Pai e de meus tios, de volta da rádio, procurando captar as notícias da BBC que, no final da tarde do dia 3, confirmaram a declaração de guerra à Alemanha. Na apresentação do livro, o Prof Rui Carita, que veio para a Madeira nos anos setenta do século passado, numa palestra interessante, usando uma linguagem fácil, procurou transportar-nos ao tempo em que decorre toda a acção, o que de algum modo terá conseguido, não obstante faltar-lhe a sua vivência e daí ter, até certo ponto, sido levado a exorbitar na interpretação dos comportamentos dos alemães e ingleses desse tempo, quiçá desvirtuando parte da realidade e da cordialidade que Helena Marques foi capaz de nos transmitir no seu livro, bem esclarecedor que é, do que foram aqueles anos quarenta, que vivemos e foram por ela tão naturalmente agora recriados. Ora, para concluir, como escreve Helena Marques, na nota de abertura, "o bazar alemão" é uma 'obra de ficção assente em acontecimentos verídicos' mas é, além de tudo o mais, 'uma evocação e uma homenagem' e que, em minha opinião, se lê com um interesse que vai sempre crescendo, desde a primeira até a última página.