Os últimos anos implicaram um profundo declínio para os sectores produtivos regionais, infligiram uma trajectória regressiva das exportações e impuseram uma quebra acentuada no défice comercial da Madeira. Em 1988, o Governo Regional definiu como objectivo incentivar a actividade industrial da Madeira "preparando tecnicamente as empresas regionais para que se tornem competitivas a nível do País e da Comunidade Europeia" (Programa de Governo/RAM 1988-1992 54). O grande objectivo programático era fomentar "uma política de substituição de importações". Aconteceu exactamente o contrário. Não só a aposta industrial redundou num completo logro, como aumentaram progressivamente as importações, numa balança comercial completamente desequilibrada. Em vez da anunciada "política de substituição de importações", temos uma "elevada dependência face ao exterior", em que se agravou a dependência ao longo dos anos, como "é demonstrada pela importação de uma grande multiplicidade de produtos, em contraste com a exportação de uma reduzida diversidade de mercadorias" (PIDDAR 2004 24). O Governo Regional dizia em 1988, sobre os apoios à produção agrícola, que "com a adesão de Portugal às Comunidades Europeias, os agentes económicos dispõem agora, de um conjunto de legislação que contém medidas de apoio de natureza estrutural, orientados para o investimento produtivo" (Programa de Governo/RAM 1988-1992 32). Os principais indicadores demonstram a redução da área agrícola, e nomeadamente no subsector da fruticultura, uma quebra abrupta na comercialização da produção regional, sendo a banana um dos exemplos mais significativos. No que concerne à produção leiteira, o Governo Regional definiu medidas que, então, visavam "incentivar o aumento da produção de leite e de carne". Passados estes anos, os números não enganam. A produção de leite de vaca na RAM, que ascendia aos 27 milhões de litros/ano, passou a registar quebras contínuas. A Pesca, que representou cerca de 5% do PIB regional, caiu para menos de 1%. Registou-se uma quebra para metade do número de pescadores matriculados e no pescado descarregado na Região verificam-se acentuadas reduções globais. Outra diminuição vertiginosa verificou-se no número de embarcações de pesca. Há duas décadas o Governo Regional anunciou medidas, internas e externas, para defender o interesse regional quanto aos produtos tradicionais de exportação, como os vimes e o bordado. Hoje, o que temos são fábricas fechadas, e, como sector, o bordado está em agonia prolongada. Os vimes, a chamada indústria do vime, na Madeira, constitui um fracasso. Foi desmantelada a "obra de vimes" e substituída pelos produtos estrangeiros agora vendidos na Região. Em 1982, as exportações da Região concentravam-se num leque muito reduzido de produtos. De facto, a banana, os bordados e tapeçarias, o vinho e as obras de vimes perfizeram cerca de 70% do valor exportado, numa fase em que a Madeira importava praticamente tudo. Décadas depois, para a economia regional e, em particular, para os sectores produtivos importa sublinhar como da prometida substituição de importações à realidade de hoje há um abismo fundo, maior que o "Mar da Travessa". Excepção feita ao Vinho Madeira, produto de excelência, mas subaproveitado pela Região, hoje, a Madeira sobretudo exporta lixo. Os contentores chegam com praticamente tudo e partem cheios de sucata. Deste modo, os resíduos comprovam como foi errado o projecto de desenvolvimento regional.
Edgar Silva