Duas bordadeiras, um vendedor de
peixe na praça do Mercado dos Lavradores e um profissional dedicado à
chapelaria foram os quatro distinguidos esta sexta-feira pela Câmara Municipal
do Funchal, numa cerimónia integrada nas comemorações do Dia Mundial do
Turismo.
A entrega das Distinções
Turísticas Municipais decorreu no terraço do Mercado dos Lavradores e pretendeu
reconhecer pessoas que, através da actividade que desenvolvem há várias
décadas, contribuem para preservar saberes, ofícios e tradições que fazem parte
da identidade da cidade e constituem também elementos de interesse para quem
visita o Funchal.
Margarida Ascensão e Maria José
Rodrigues foram distinguidas pelo trabalho desenvolvido no Bordado Madeira e
pelo contributo dado à preservação e transmissão deste saber tradicional. Pedro
Gonçalves recebeu a distinção pelos 64 anos de presença na Praça do Peixe,
enquanto Paulo Pestana foi reconhecido pela dedicação à chapelaria, ofício que
exerce desde os 16 anos, dando continuidade a uma actividade cuja fábrica
funciona desde 1948.
Aos jornalistas, o presidente da
Câmara Municipal do Funchal, Jorge Carvalho, lembrou que o turismo é “uma das
principais actividades económicas da Região, mas também da nossa cidade”. Este
ano, vincou, a opção passou por distinguir quem está ligado ao quotidiano da
cidade e a espaços ou actividades que também constituem referências turísticas.
“Entendemos que este ano [devíamos] homenagear aqueles que estão na base
daquilo que é o quotidiano da nossa cidade, em locais que são de referência do
ponto de vista turístico”, justificou Jorge Carvalho.
Segundo o autarca, trata-se de
reconhecer pessoas que diariamente contribuem para prestar um serviço aos
funchalenses, mas que estão igualmente em contacto com quem visita a cidade. Da
Praça do Peixe à chapelaria e ao bordado, a escolha recaiu sobre actividades
que, apesar das transformações ocorridas ao longo dos anos, continuam a ter
expressão e a constituir referências para os turistas.
Jorge Carvalho afastou qualquer
critério de natureza pessoal na selecção dos homenageados. “Não há aqui nenhuma
relação pessoal”, garantiu, explicando que existe “apenas e tão só o
reconhecimento” das pessoas e também das instituições ou actividades que representam
e que constituem “uma marca na actividade comercial e turística da nossa
cidade”.

Uma vida inteira a bordar
Aos 75 anos, Margarida Ascensão
continua a bordar, uma actividade que começou a aprender aos 11. “A minha vida sempre
foi bordar”, conta. O trabalho foi sendo conciliado ao longo das décadas com as
tarefas domésticas e familiares, mas nunca desapareceu do seu quotidiano.
A distinção apanhou-a de
surpresa. “Fiquei muito, muito contente. Nunca estive nestas coisas assim e,
com esta idade que eu tenho, com 75 anos, sinto-me [...] contente com isto”,
afirmou.
As memórias de Margarida Ascensão
ajudam também a perceber como mudou a vida das bordadeiras. Recorda os tempos
em que trabalhava pela noite dentro, à luz de petróleo, muitas vezes em casa de
vizinhas. Bordou toalhas, colchas e inúmeras outras peças, chegando
inclusivamente a executar um vestido de noiva e uma camisa para o noivo.
Apesar de continuar apaixonada
pelo ofício, reconhece que o rendimento nem sempre acompanha as muitas horas
exigidas por cada peça. “Não compensa”, respondeu quando questionada sobre a
remuneração do trabalho. Ainda assim, garante que não pensa deixar de lado a
agulha e as linhas. “Enquanto eu puder e Deus me der saúde, vou continuar
sempre a bordar”.

Também Maria José Rodrigues
aprendeu o ofício em família. Borda há cerca de 48 anos e cresceu rodeada por
mulheres que faziam o mesmo. “A minha mãe, a avó e as tias bordavam”, recorda.
A transmissão desse conhecimento, porém, parece hoje menos garantida. Segundo a
bordadeira, as gerações mais novas da família já não demonstram o mesmo
interesse.
Depois de ter trabalhado durante
15 anos como empregada doméstica, Maria José regressou ao bordado, que voltou a
ocupar grande parte dos seus dias. Considera que a profissão “devia ser mais
valorizada” e acredita que muitas das peças que executa acabam destinadas ao
mercado turístico.
A homenagem teve para si um
significado especial. “Nunca fui chamada para isto e sinto-me muito contente. É
uma honra para uma bordadeira”, afirmou, assumindo o “orgulho” que sente pelo
trabalho que continua a desenvolver.
64 anos na Praça do Peixe
Outra das histórias reconhecidas
pelo Município foi a de Pedro Gonçalves. Chegou ao Mercado dos Lavradores ainda
criança, com cerca de 10 anos, para acompanhar o negócio do pai e acabou por
construir praticamente toda a sua vida profissional na Praça do Peixe.
“Eu também nunca saí do mercado.
Estive sempre aqui no mercado e sinto-me orgulhoso de estar aqui a representar
o Mercado dos Lavradores”, afirmou.

Para Pedro Gonçalves, aquele
espaço é mais do que o local onde trabalha. “O Mercado dos Lavradores é um
património que a nossa Região tem”, sustentou, considerando que possui “muito
valor” e merece ser visitado.
A realidade que hoje encontra,
porém, é muito diferente daquela que conheceu quando começou a trabalhar. Na
altura, recorda, quem queria comprar peixe tinha praticamente de deslocar-se ao
Mercado dos Lavradores. O aparecimento de outros estabelecimentos comerciais
alterou profundamente os hábitos dos consumidores e reduziu o movimento da
Praça do Peixe.
“Hoje em dia temos que
acompanhar. Temos que acompanhar o comércio, o cliente precisa”, reconheceu.
Pedro Gonçalves fez também questão de repartir o mérito da distinção com os
dois irmãos com quem trabalha: “Eu é que dou o nome, mas tenho dois irmãos que
têm muito valor. Se não têm mais do que eu, têm o mesmo valor”.
Apesar das mudanças, mantém
intacto o gosto pelo contacto com quem passa pelo mercado. “Gosto de estar aqui
a trabalhar com o público, conviver com o público. Toda a minha vida foi isto”,
resumiu.
As quatro distinções procuram,
assim, associar a actividade turística não apenas aos locais mais visitados do
Funchal, mas também às pessoas e aos saberes que ajudam a conservar a
identidade desses espaços e da própria cidade.

