O presidente do
Governo Regional da Madeira é o 81.º convidado do podcast ‘E Se Corre Bem?’, do
ECO, e ao longo da conversa com Diogo Agostinho, COO do ECO, deixa claro que a
sua ‘bússola’ sempre apontou noutra direcção, a da clareza e da coragem, dois
valores que aprendeu ainda em criança, dentro de casa.
Durante o ‘podcast’, Albuquerque lembra que foi
o avô quem moldou grande parte da sua visão sobre a vida pública. Era um homem
da oposição que participou directamente num dos episódios mais turbulentos da
história da ilha: “Eu sempre tive a política em casa porque o meu avô, com quem
fui criado, era um homem da oposição e foi um dos líderes da primeira revolta
da Madeira, em 1931. Quando se deu 25 de Abril, eu já tinha uma percepção da
realidade política porque falávamos dela. E, obviamente, eu inspirei-me em
muitas das conversas que surgiam lá em casa”. Não era apenas política de mesa
de jantar, era uma formação acelerada em resistência, princípios e
consequências.
Ainda assim, quando chegou o momento de
escolher uma profissão, Albuquerque diz ter optado pela independência. Quis ter
os pés no chão antes de os colocar nos corredores do poder. Abriu o seu
primeiro escritório de advocacia aos 23 anos e o negócio prosperou rapidamente:
“Foi um escritório de grande sucesso e só o abandonei quando fui para o
exercício de vice-presidente da Câmara [do Funchal], em 1994. Na altura, tinha
400 e tal processos a decorrer ao mesmo tempo e, para além disso, era
administrador de um conjunto de empresas familiares. Era incompatível”. A
transição para a política foi uma escolha deliberada, feita com plena
consciência do que ficava para trás.
A passagem de vice-presidente a presidente da
Câmara Municipal do Funchal aconteceu mais depressa do que o previsto,
impulsionada por um conflito interno que culminou na saída de Virgílio Pereira
no Verão de 1994. Albuquerque assumiu o cargo e ficou nele durante 19 anos
consecutivos, período em que imprimiu uma transformação profunda no município. “Nós
fizemos muita coisa no Funchal. Os nossos mandatos marcaram uma modernização
efectiva e ainda hoje as pessoas falam. Já na altura tomávamos decisões contra
quem fosse”, recorda no ‘podcast’.
O fio condutor dessa modernização foi o
crescimento económico. Albuquerque acredita que sem prosperidade material não
há política social que funcione, e os números que apresenta sustentam essa
convicção: “Nós éramos a região mais pobre, mas tínhamos de dar o salto porque
só com crescimento económico é que se consegue pagar melhores salários,
erradicar a pobreza e diminuir as desigualdades. E o que nós conseguimos foi,
em dez anos, duplicar o PIB da Madeira, passámos de mais de quatro mil milhões
de euros para mais de 8 mil milhões. Temos os impostos baixos, o PIB está 107
pontos acima da média nacional, e a dívida está a 60% do PIB porque nós a
amortizamos. Só com contas públicas directas é que se pode ter uma economia
consistente”.
Para chegar aqui foi preciso, diz ele, ouvir
o avô. Não literalmente, mas os ensinamentos ficaram gravados: “O meu avô
dizia-me sempre que a parte mais importante de um político não é a
inteligência, mas duas coisas: coragem e clareza. Não há política sem clareza.
A clareza é fundamental para se perceber o caminho que se quer seguir e,
depois, é preciso ter a coragem de seguir em frente e aguentar o barco”. São
palavras que poderiam soar a cliché noutros contextos, mas ganham peso
diferente quando vêm de alguém que, em 2014, decidiu concorrer à presidência do
PSD-M, sem apoios garantidos, contra quem fosse preciso. E ganhou. E depois ganhou
as Regionais de 2015. E não se arrepende da forma como o fez. A popularidade,
afirma, é uma armadilha que paralisa quem governa: “Há políticos que querem ser
amados e eu tenho pena deles. Querem ser amados por todos, à esquerda e à
direita, querem ser politicamente correctos. Mas eles nunca hão de fazer nada e
nunca hão de ficar na história. É preciso decidir”.
Na prática, decidir significou apostar numa Zona Franca que hoje representa uma fatia
relevante da economia regional: “Nós aqui estamos na linha da frente. Neste
momento temos mais de 400 empresas, que facturam aqui cerca de 700 milhões de
euros. Fomos reduzindo o IRC, está em 13,3%, e, neste momento, o IRS está com
30% diferencial até ao 9.º escalão. Por conseguinte, estamos com um conjunto de
empresas de ponta, onde fixamos os jovens entre os 22 e os 27 anos. Isto porque
também temos aqui a robótica e até vamos construir uma fábrica para que as
peças sejam montadas e fabricadas cá. Estas empresas são as que trazem maior
valor acrescentado, que podem fixar os nossos jovens, e que levam à
diversificação da nossa economia”.
A diversificação passa também pela reinvenção
dos sectores tradicionais. O exemplo das carpintarias diz muito sobre a
filosofia que tem guiado as políticas de educação e formação na ilha: “Aqui as
carpintarias são de ponta. Já não têm carpinteiros, mas têm os jovens a fazer
impressão 4D e 5D. Desde 2015, adoptámos o modelo de educação de Singapura, que
faz com que todas as escolas públicas que têm matemáticas aplicadas desenvolvam
programação robótica, impressão 4D e, agora, Inteligência Artificial. A verdade
é que não vamos ter gente para trabalhar em áreas não qualificadas, portanto
temos de desenvolver algumas áreas e atrair empresas para cá”.
Salienta que os sinais de que a estratégia
funciona estão também na balança comercial, que fecha positiva há sete anos
consecutivos. O último registo apontava para um excedente de 138 milhões de
euros. Lembra que o horizonte imediato prevê mais dois campos de golfe para posicionar a
Madeira como destino de referência nessa modalidade, e um processo mais amplo
de valorização da oferta turística. O objectivo não é crescer em volume, mas em
qualidade: “Isto significa que estamos a melhorar tudo o que é produto e
serviço, a oferta de restauração, de hotelaria, de circuito, de visita. Sobe a
qualidade e sobre o preço. Nós não somos um turismo massificado, somos um
turismo de nicho, mas interessa que o produto ou o serviço que é prestado tenha
alta qualidade para ser remunerado convenientemente”.
Este ‘podcast’ está disponível no Spotify e
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