Por Magna Correia

Recebemos, com profunda tristeza, a notícia de que a Dra. Filomena Mina já não está entre nós.

Tenho 39 anos, sou médica há 13 anos e sinto, com particular emoção, que uma parte da escolha que fiz pela Medicina nasceu também de ter tido uma Dra. Filomena na minha vida.

Desde que me lembro de ser gente, a Dra. Filomena fez parte da minha história e da da minha família. Hoje, gostaria de partilhar algumas memórias, não apenas para homenagear a médica de família que foi, mas sobretudo a pessoa que marcou, de forma tão discreta e profunda, tantas vidas.

Todos os anos, eu e os meus irmãos sabíamos que tínhamos um encontro marcado com a Dra. Filomena. Era, habitualmente, uma consulta por ano. Entre perguntas, registos minuciosos e o seu olhar atento, levantava os olhos por cima dos óculos e perguntava, com a naturalidade de quem acompanhava cada etapa da nossa vida:

— “Então, este ano vamos para que ano?”

Depois da nossa resposta, registava cuidadosamente a informação. Na altura, confesso, não compreendia inteiramente a importância daquela pergunta, repetida ano após ano.

Até que, já adolescente, numa dessas consultas anuais, ouvi uma pergunta diferente:

— “Então, este ano vamos para a faculdade?”

Foi nesse momento que percebi. Ela não estava apenas a acompanhar a nossa saúde. Estava a acompanhar-nos.

Acompanhava o nosso crescimento, os nossos percursos, as nossas escolhas e, de alguma forma, os nossos sonhos.

Hoje, embora seja médica especialista em Imunoalergologia, reconheço em mim muito dessa forma de exercer Medicina. Sou também, de certa maneira, uma pequena “médica de família” das famílias que acompanho em consulta. Sei em que ano estão os filhos, para que ano vão, o que gostariam de escolher e, tantas vezes, conheço as suas preocupações para além daquilo que os trouxe naquele dia à consulta.

Gosto de ouvir, de aconselhar, de acompanhar. Gosto de conhecer as pessoas que estão à minha frente e não apenas a doença que apresentam.

E sinto que isso também lhe devo.

Numa época em que tantas vezes tudo se pretende mais rápido, mais automático e mais impessoal, continuo a acreditar que a Medicina não pode perder aquilo que tem de mais humano: a relação, a escuta, o tempo dedicado ao outro e o verdadeiro cuidado pelo doente.

Também isso aprendi com ela.

A médica que sou hoje é, em grande parte, resultado das referências que tive ao longo da minha vida. E sei que não sou a única. Muitos dos que tiveram o privilégio de aprender e conviver com a Dra. Filomena Mina reconhecem, certamente, um pouco da sua influência na forma como hoje exercem a Medicina.

Esse talvez seja o mais bonito dos legados de um médico: aquilo que permanece nos outros depois de nós.

Por isso, termino com um desejo.

Que o legado da Dra. Filomena Mina continue vivo nas colegas que formou, nas pessoas que acompanhou e em todos aqueles a quem ensinou, através do exemplo, que ser médico é muito mais do que diagnosticar e tratar.

Que essas colegas possam transmitir aos seus internos não apenas conhecimento científico, mas também a humanidade, a dedicação e a proximidade que fizeram dela uma médica tão especial.

Porque alguns médicos tratam doenças.

Outros acompanham pessoas.

E há ainda aqueles que, sem saberem, ajudam a formar os médicos que virão depois deles.

A Dra. Filomena Mina foi, para mim, uma dessas pessoas.

Até sempre, Dra. Filomena Mina.

E obrigada por ter feito parte da minha história.