Os resultados das eleições legislativas de ontem não se fazem apenas das somas dos votos que ditam vencedores e vencidos, da aclamação clubística dos feitos e das críticas desenfreadas aos defeitos, das odes aos promissores, dos reparos às humilhações e das ironias aos aziados. Fazem-se também de muitas incertezas que obrigam a pensar em diversas frentes, sem deixar ninguém nas margens da reflexão inadiável interessada em robustecer a democracia. Fazem-se do retrato que exibe uma complexidade severa do momento político que volta a exigir arte e negociação em nome da estabilidade desejada, tarefa hercúlea ante um parlamento fragmentado, resultante de um sem número de tensões latentes no espaço público e da crescente desconfiança de muitos cidadãos face às instituições. Num cenário adverso, torna-se imperativo agir com lucidez, responsabilidade e sentido de Estado. E há felizmente quem já o tenha feito, em claro contraste com os que teimam em prolongar agonias partidárias e pesadelos colectivos apenas porque não querem ver o óbvio.