Respira-se um ambiente festivo. Do enquadramento religioso à vertente consumista, daqueles que vivem a época apaixonadamente no seio familiar ou em grupos alargados, àqueles que se dizem indiferentes ... é difícil não se deixar influenciar por todo um contexto de festividade, de reflexão, de promessas, de solidariedade e tolerância. É um contexto de tal forma mediatizado que, de uma forma ou de outra, acaba por contagiar os comportamentos individuais e coletivos de quase toda a gente...

A Madeira é um dos locais onde, nesta altura, se sente e vive este tipo de enquadramento e onde, quer os residentes, quer os visitantes, entram, voluntária ou involuntariamente, no espírito da época.

Ora, a criação de contextos, como forma de estimular e promover determinados tipos de comportamento é algo que está estudado e é (tem sido) aplicado em diferentes áreas e âmbitos de atuação (nomeadamente, artístico, desportivo, cultural, educacional, empresarial, etc.).

A título de exemplo, não é por acaso que os contextos mais propícios à criatividade e inovação, são aqueles onde os ditos hábitos e costumes são mais liberais, onde a tolerância e liberdade, o respeito pela diversidade e a autonomia individual, parecem estar mais enraizados.

É assim natural que, nesse tipo de contextos, os horários e locais de trabalho sejam mais flexíveis e com valências pouco tradicionais, que o tipo de vestuário e a relação entre os diferentes profissionais, independentemente da hierarquia, sejam mais informais, que a utilização de meios tecnológicos para comunicar e produzir acabem por assumir uma relevância acrescida...

Será assim legítimo questionar como é que, ao nível do sistema educativo (do básico ao universitário), se apregoe que se pretende desenvolver a criatividade, a autonomia, a curiosidade e a capacidade de pesquisa ... e depois não se criem contextos adequados?

É que, salvo alguns honrosos esforços institucionais e a dedicação de alguns profissionais, maioritariamente não se conseguem criar condições para desenvolver as capacidades e potencialidades dos alunos. Continua-se generalizadamente a formar para o passado. Massifica-se em vez de personalizar, com horários, turmas e programas disfuncionais que, muitas vezes, mais parecem existir em função de interesses corporativos ou de clientelas individuais, e não das reais necessidades e possibilidades dos alunos.

Se as instituições de ensino não querem, não são capazes ou não as deixam criar contextos que estimulem e promovam um ambiente propício a um processo educativo que dê respostas aos problemas que hoje se colocam, então é provável que elas continuem a ser substituídas por outros meios e processos, muitas vezes de qualidade duvidosa, mas de embrulho apelativo. Depois não se estranhe que não se seja capaz de separar o “trigo do joio”, que proliferem as “fake news”, que se emitam opiniões “por ouvir dizer”, etc.

É possível e desejável que os ambientes educativos (em casa, na escola, no clube, nos órgãos de comunicação e nas redes sociais...) se modifiquem, sem que sejam necessários grandes investimentos. Porém, não basta pedir ao Pai Natal, ou fazer votos para que em 2020 tudo se altere por artes mágicas.

É preciso assumir que, direta ou indiretamente, a manutenção ou alteração dos contextos e das práticas também depende de cada um de nós. Se formos capazes de criar ambientes de aprendizagem em que, de forma natural, “se respire” criatividade, inovação, autonomia, respeito pelas opiniões e diversidade individual ... é provável que mais facilmente se entre no “espírito da coisa” e se possa dar um salto qualitativo que terá claras repercussões na nossa qualidade de vida, não só a curto, mas fundamentalmente a médio e longo prazo.

Votos para que em 2020 cada um obtenha aquilo que a qualidade e honestidade do seu desempenho pessoal e profissional justificar.