
A vida é um jogo de equilíbrios. Se por um lado é necessário saber criá-los e alimentá-los, por outro lado, em certos momentos, também pode ser necessário quebrá-los para que exista evolução e se desenvolvam equilíbrios mais rentáveis. É assim nos mais variados âmbitos, desde o funcionamento do próprio corpo até à vida em sociedade.
A autocensura é um dos mecanismos que, quando bem utilizado, pode ajudar a regular a vida pessoal, familiar, profissional, social.... Contudo, infelizmente muitas vezes ela é feita com medo de represálias ou para não prejudicar uma agenda pessoal pouco transparente.
Todos conhecemos pessoas que apregoam que são muito diretas e que dizem o que pensam, mas, por vezes, mais não são que “elefantes numa loja de porcelana”. Como diz um colega meu “há pessoas que têm o dom de dizer a coisa errada no momento errado”.
Alguns até são “boas pessoas”, mas são uns desastrados sociais. Outros vivem para alimentar o ego, o que, aliado à falta de educação e de respeito pelos outros, dá uma mistura explosiva.
A autocensura também pode ser uma manifestação de cobardia para denunciar algo ou alguém... e, pelo contrário, a sua falta pode conduzir a acusações infundadas e irresponsáveis...
Num mundo onde constantemente somos bombardeados com opiniões de comentadores e ditos especialistas, pode não ser fácil distinguir o “trigo do joio”. É certo que não há opiniões neutras, mesmo que as pessoas sejam honestas, são sempre influenciadas pelo seu quadro de referência.
Contudo, a opinião de uma pessoa intelectualmente honesta que assuma claramente a sua área política, clubística, religiosa, etc. deve ser merecedora de crédito e tida em consideração, ao contrário da opinião daqueles que, tendo uma agenda escondida, querem fazer de todos nós parvos e se arvoram em independentes.
Há órgãos de comunicação social, por exemplo jornais e televisões, nos EUA, que editorialmente assumem o apoio a um partido/candidato. Por cá, tirando os órgãos de comunicação social oficiais dos partidos políticos e dos clubes, é muito raro isso acontecer, antes pelo contrário, tentam negar perante todas as evidências...
O mundo do futebol é um excelente exemplo do que acabamos de referenciar. Contam-se pelos dedos das mãos aqueles que efetivamente demostram independência. Aliás, muitos deles é vê-los mais tarde a exercerem funções nos clubes, assumindo comportamentos de uma irracionalidade primária que chega a envergonhar os próprios adeptos.
Apesar de existirem honrosas exceções (em todas as áreas) ... infelizmente muitos dos “fazedores de opinião” parecem ultrapassar os limites da racionalidade (embora obviamente esta seja difícil de delimitar) utilizando todos os meios (mesmo “ilícitos”) para se autopromoverem e mostrar serviço “ao chefe” de forma a manter ou melhorar o seu lugar na estrutura ... Considerando que dificilmente os próprios farão autocensura, importa que cada um de nós não se “autocensure” na denúncia de tais situações... e de outras bem mais graves para o bem-estar individual e coletivo.
Ora, o processo pedagógico (na escola, no clube, na família ...) que deve defender e promover a liberdade de expressão como um direito inalienável, também deve possibilitar que a autocensura, encarada como um processo livre e consciente, alicerçada em padrões éticos e morais balizadores da vida individual e coletiva, seja utilizada como um importante mecanismo de regulação dos equilíbrios pessoais, familiares, profissionais, sociais ... evitando a tentação de “falar de cor” e ser caixa-de-ressonância de boatos, calúnias, campanhas de desinformação e afins.
Não pode valer tudo, até porque é fácil ser-se ”fraco com os fortes e forte com os fracos”. Já é mais difícil ser justo e equilibrado num mundo desigual onde a mobilidade social e a melhoria das condições de vida, infelizmente, para muitos, parece estar essencialmente dependente do Euro Milhões...