Vivemos num mundo de contrastes. Contudo, podemos afirmar que, generalizadamente, passámos de um mundo de “escassez” de informação e conhecimento, onde ter uma enciclopédia em casa era um luxo, para um de “abundância e redundância”, que cabe na palma da mão, onde o mais difícil é saber e conseguir selecionar o que é credível e merece ter a nossa atenção.

Ora, o desenvolvimento tecnológico está presente em todas as vertentes da nossa vida. Contudo, em certas áreas, ainda parece ser olhado com desconfiança por muitos daqueles que deveriam estar na vanguarda do processo de desenvolvimento.

Uma dessas áreas é o desporto onde, em paralelo com nichos de excelência, coexistem os utilizadores de circunstância e aqueles que continuam a ser completamente “analfabetos tecnológicos”.

Alguns “iluminados” ainda lançam “pérolas” como: “mas isso ganha jogos?”. Obviamente que só por se usar apoio laboratorial não se ganham jogos, mas se soubermos utilizar todo o seu potencial, certamente aumentaremos as probabilidades de fazer um melhor diagnóstico, prescrição e controlo dos processos. Tal como o médico faz ao utilizar análises clínicas, Rx, TAC, Ressonância Magnética, Ecografias, etc. etc. Não cura, mas pode ajudar ...

No desporto já se começam a ter modelos, representações de situações e de acontecimentos que permitem uma compreensão e explicação funcional (como funcionam, como se articulam e mutuamente influenciam as suas variáveis).

É assim possível utilizar apoio laboratorial para quantificar alguns indicadores que nos permitam perceber e explicar fenómenos (que podem ser acontecimentos ou processos) sem que se perca a coerência global.

Ou seja, é possível que, numa primeira fase, de forma isolada, se tirem dados percebendo as implicações que têm, mas depois é preciso integrar os diferentes valores para compreender as relações.

É preciso gerir e não fazer por fazer ... só para mostrar que não se parou no tempo ...

O apoio laboratorial, reiteramos, permite um melhor diagnóstico, prescrição e controlo dos efeitos daquilo que se faz no treino e na competição. A posologia a aplicar depende do que a pessoa precisa e não do que se tem em armazém ...

Não basta ter dados e informação, é preciso saber tratá-la e conseguir retirar os ensinamentos úteis para cada desportista, em cada situação específica.

O todo não é uma mera integração dispersa das partes, há dialéticas que se estabelecem e uma harmonia que tem de ser conseguida para que possa existir um funcionamento que tenha a possibilidade de atingir eficiências, tão elevadas quanto possível, em função dos objetivos visados.

Para que seja possível uma mudança generalizada, é necessário, por exemplo: - Reajustamentos ou roturas ao nível da compreensão do Homem e das atividades desportivas;- A utilização de metodologias apropriadas - A utilização de novos instrumentos e ferramentas, etc.

É obvio que não podemos ficar escravos das tecnologias. Elas são apenas um instrumento para que o processo pedagógico possa cumprir as suas funções de adaptação do Homem aos recursos que hoje dispomos.

No atual contexto de “abundância” não se justifica que muitos continuem a agir como se ainda existisse “escassez”. Não conhecer todo o potencial do apoio laboratorial ao processo de treino e competição é ignorância. Conhecer esse potencial e não o utilizar quando, muitas vezes nem tem custos significativos, pode ser indicador de incompetência. Conhecer o potencial, saber implementá-lo e não o fazer, quando existem condições para isso, muito provavelmente é desonestidade.

Mas será que queremos e conseguimos sair da nossa zona de conforto?