Embora não se trate de uma “atividade” exclusivamente portuguesa, por cá tem inúmeros seguidores e verdadeiros praticantes. Referimo-nos à colocação “em bicos de pés”.

Todos nós conhecemos, na nossa vida pessoal e profissional, na esfera privada ou na pública, quem tenha uma permanente necessidade de se autopromover, de realçar e enaltecer alegados “feitos e conquistas” de si próprio, dos familiares e até de amigos e conhecidos.

São opções de vida. Podemos concordar ou não com os objetivos e com os meios utilizados, podemos apreciar o estilo ou simplesmente rirmo-nos do ridículo em que alguns caiem, porém, antes de aplaudirmos ou ridicularizarmos, no mínimo deveríamos tentar perceber se existe algum mérito que mereça ser relevado, se estamos perante uma “encenação”, um empolamento injustificado de algo banal, ou simplesmente o habitual “cumprimentar com o chapéu alheio”.

Faz toda a diferença ter mérito ou não ter. O facto de o ter não legitima automaticamente a necessidade de o “propalar aos quatro ventos”, nem os meios utilizados. Nomeadamente, quando isso, direta ou indiretamente, acaba por lesar terceiros (pessoas ou instituições).

Há quem julgue que por ser um mero “emplastro” televisivo e noutros meios de comunicação social (convidado ou não), ser muito ativo nas redes sociais, etc. tem mais notoriedade. A título de exemplo, no âmbito desportivo, toda a gente já percebeu que, para se fazer ouvir, basta dizer mal de alguém conhecido ou candidatar-se a um cargo. Mesmo que tenha uma derrota estrondosa, não só teve muito legitimamente o seu tempo de antena durante a disputa eleitoral, como depois, muito provavelmente, passará a ter assento em programas desportivos e a ser ouvido enquanto “formador de opinião”.

No fundo, a lógica de que é preciso aparecermos para falarem de nós. Contudo, se assim for (muitas vezes ainda é), tristes são os que se deixam embalar por tão rudimentares expedientes, pois decidem o mérito através do embrulho e de como é vendido e não pela análise do conteúdo... Tristes de nós, quando isso influencia, de forma decisiva, a escolha de quem assume funções de liderança nos mais variados âmbitos profissionais, políticos, sociais...

Não basta lamentarmo-nos, é necessário perceber que, muitas vezes, todos nós ajudamos a perpetuar este estado de coisas, nomeadamente quando, durante o processo formativo das nossas crianças e jovens (em casa, na escola, no clube, ...) estimulamos, promovemos ou pactuamos com um sorriso cúmplice ou assobiando para o lado, a colocação “em bicos de pés” por “feitos e conquistas” que deveriam ser normais num processo evolutivo, esquecendo que o mais importante não é idolatrar potenciais “génios”, mas sim criar condições para que cada um possa explorar e desenvolver ao máximo as suas capacidades e potencialidades.

Em educação (por exemplo, na escola e no clube) os ciclos são longos, é preciso saber esperar, por isso a colocação “em bicos de pés” por resultados pontuais, habitualmente, não dá bom resultado, pois normalmente só serve para queimar etapas que deveriam ser consolidadas, camuflar os verdadeiros problemas e, consequentemente, atrasar ou mesmo impedir que se tomem as decisões mais adequadas.

É preciso ter consciência que a importância de cada um normalmente desvanece-se quando sai do seu “quintal” ou da frente do espelho. Há sempre “quintais” maiores ou diferentes onde quem se julga importante é completamente desconhecido.

Além do mais, o mérito e a autoconfiança não necessitam de andar de mão dadas com a sobranceria, nem da colocação “em bicos de pés”.