Quando a sociedade e os seus líderes insistem em ignorar-nos, é comum dizer-se que ‘o tempo há de nos dar razão’. Noutras ocasiões, porque as consequências disso são demasiado dramáticas, pedimos que o tempo não nos traga essa confirmação. Todos nós sabemos que ter razão antes do tempo, por mais que nos afague o ego, na prática, não serve de grande coisa. Ficam sempre na dianteira aqueles que encontram a razão no momento certo, quando a sociedade está preparada para ela e disponível para a aceitar. Há quem lhes chame oportunistas, mas é provável que sejam apenas pessoas que sabem aproveitar as oportunidades que a vida lhes desfila à frente do nariz. Entretanto, uma visão menos imediatista e as melhores soluções para os graves problemas que nos enfermam vão aguardando por esse momento certo.

Em 1996, através da Quercus- Associação Nacional de Conservação da Natureza e depois de um estágio Erasmus em Paris, onde o assunto estava ao rubro, eu próprio trouxe para a Madeira, com a ajuda do jornalista Jorge Sousa, do Diário de Notícias do Funchal, um alerta sobre os perigos do amianto. Nesse tempo, o amianto era utilizado nesta Região essencialmente sob a forma de fibrocimento, para telhados, tanques e tubos, e trabalhado sem quaisquer cuidados. Depois de um especialista das indústrias de amianto ter vindo à Madeira dizer que o amianto não era perigoso, fui brindado com a medalha de lata no podium da Revista domingueira do Diário de Notícias do Funchal, acusado de displicente e alarmista. Entretanto, depois de humilhado e desacreditado, o tempo foi passando, o uso e comercialização do amianto passou a ser proibido pelos graves perigos que representa para a saúde, e começaram a surgir programas de remoção do amianto em alguns locais, como nas escolas e nos bairros sociais.

Em 1999, a Quercus foi a única voz a opor-se à construção de uma central de incineração de resíduos na Madeira, alertando para as emissões poluentes, os custos elevadíssimos e a incompatibilidade com os objetivos de reciclagem. Inaugurada em 2004, a central de incineração deixou, entretanto, a taxa de reciclagem bem abaixo dos 10%, além do constrangimento financeiro que criou às autarquias com os seus elevados custos.

Os alertas para que se respeitassem os leitos e margens das linhas de água não foram atendidos ao longo de décadas, mesmo com os insistentes avisos da própria natureza. Eis que chega o dia 20 de fevereiro de 2010 e instala-se o caos e a destruição, roubando largas centenas de milhões de euros em prejuízos e, pior, 50 preciosas vidas humanas.

A ocupação desregrada e abusiva do litoral mereceu fortes reparos de algumas organizações e personalidades madeirenses, mas de nada serviu. Consequências?! Bastará recordar o historial da Marina do Lugar de Baixo, os enrocamentos costeiros, que vão assoreando sem o dinheiro para a sua manutenção, e a perda de interesse internacional para o surf no Jardim do Mar.

Depois de décadas de satisfação com os incêndios na Madeira (dizia-se que era bom para limpar as serras), quando a sociedade começou a entender que o património natural merecia ser protegido, surgiu a discussão em torno dos meios aéreos para o combate e, ao mesmo tempo, a narrativa oficial de que eram desadequados para a realidade orográfica da ilha. Depois do problema se agudizar, afetando zonas habitadas e com perda de vidas humanas, surgiu a abertura para experimentar essa solução e hoje está aí a atuar. Ainda é cedo para conclusões finais, mas já é evidente a sua utilidade e a razão imposta pelo tempo.

O gado desordenado na serra foi contestado, sucessivamente, ao longo de séculos, por algumas personalidades. Finalmente, em 2003, ficou concluído o seu ordenamento e, mesmo que esse processo possa ainda ser melhorado, é hoje inegável a evolução positiva no estado de conservação da nossa flora serrana.